Há um novo cansaço no ar. Não é só mental, é moral. É o cansaço de fingir que está tudo bem quando claramente não está.
Finge-se uma normalidade enquanto guerras se prolongam, enquanto líderes autoritários vão ganhando espaço, enquanto a linguagem política torna-se mais agressiva e mais vazia. Fingimos que é apenas mais um ciclo, mais uma crise. Mas não é. Há qualquer coisa a mudar de lugar e que, mesmo devagar, vai ganhando espaço.
O mais inquietante não é o caos que isso possa gerar. É a habituação. É começarmos a aceitar como normal o que há poucos anos chocava. É seguir com a vida como se nada tivesse a ver connosco, como se as decisões tomadas longe não tivessem impacto aqui, nas nossas vidas, no nosso quotidiano.
E no meio deste cansaço coletivo, há uma pergunta que persiste: o que é que ainda nos prende uns aos outros?
Não são os discursos inflamados nem as trincheiras ideológicas. Não é sequer o medo nem a raiva. O que ainda nos prende é mais simples, mas mais exigente: é a consciência de que não vivemos sozinhos. De que aquilo que aceitamos hoje molda o mundo onde os outros vão viver amanhã.
É aí que a política começa. Não é nas grandes palavras, mas na recusa de desistir do coletivo. Na recusa de achar que “já não vale a pena”. Porque quando deixamos de nos importar, alguém ocupa esse espaço — quase nunca com boas intenções.
Talvez não consigamos mudar o mundo inteiro. Mas podemos decidir não ignorar. Não normalizar o inaceitável. Não abdicar da responsabilidade de pensar nos outros.
Num tempo em que tudo nos empurra para o egoísmo, continuar ligado aos outros é o gesto mais político de todos.
(Crónica escrita para Rádio)