O complexo de Porto Pim não é apenas uma baía bonita para fotografias de verão. É um lugar de memórias que correm nas veias de muitos faialenses, onde uns aprenderam a nadar, outros a respirar fundo quando o vento muda, outros a amar uma paisagem única, não raras vezes denominada como o ex-líbris desta cidade mar.
Depois do furacão Lorenzo, em outubro de 2019, percebemos bem a força da natureza, mas acima de tudo percebemos que a segurança de pessoas e bens não é um tema abstrato. Nessa intempérie, a força do mar galgou a proteção existente, destruiu parte da estrada e atingiu moradias, obrigando até a algumas evacuações. O rasto de destruição que este furacão deixou é ainda uma ferida que permanece aberta em todos aqueles que viveram momentos de enorme aflição. É também por isso, que ninguém de boa-fé poderá desvalorizar a prioridade de proteger as famílias que lá vivem e as suas casas.
Apesar de numa primeira análise parecer uma escolha óbvia, a verdade é que não podemos aceitar como uma condição, a falsa questão de nos vermos obrigados a escolher entre segurança e identidade, quando é evidente que ambas conseguem e devem conviver em simultâneo. O Complexo de Porto Pim é património histórico classificado, desde a Bombardeira, ao Reduto da Patrulha e ao Forte de São Sebastião, fortificações do Séc. XVII que ao longo de séculos ajudaram a proteger a baía.
Passados tantos anos, e apesar de terem sido feitas no passado algumas intervenções pontuais, dúvidas não há quanto à necessidade de se intervir naquele local, sendo obrigação de todas as gerações preservar o seu património e tudo aquilo que faz parte da nossa identidade.
Mas se por um lado é urgente que se intervenha naquela baía, esta intervenção não pode ser feita nem de qualquer maneira, nem a qualquer custo, e muito menos à revelia de todos quantos habitamos esta ilha. E ainda que urgente, é fundamental fazer bem, dispondo de informação completa, com a consultadoria de especialistas em património e ambiente, com a comunidade científica, e sobretudo com as pessoas que ali vivem, trabalham e crescem.
Foi neste contexto que surgiu (e ainda bem!) uma petição subscrita por mais de quatrocentas pessoas, encabeçada pelo Arq. Tomás Melo, que alerta para a existência de um estudo prévio apresentado em maio de 2025, com um investimento apontado em mais de três milhões de euros, cujas soluções passam essencialmente pelo recurso ao betão e enrocamentos, sem incluir a reabilitação do património, podendo desrespeitar a escala do lugar e perturbar equilíbrios naturais.
Quando uma comunidade se mobiliza assim, o mínimo que se exige é transparência, presença e diálogo. A ausência do Governo Regional e da Câmara Municipal num debate público sobre o tema foi um sinal errado num processo que precisa de luz e de responsabilidade.
Defender Porto Pim é defender o que nos faz Faial. É proteger o lar de muitos, a economia que vive do turismo e do mar, e o património que nos dá orgulho quando recebemos quem nos visita. Por isso, antes de qualquer avanço definitivo, é necessária uma sessão pública formal, com esclarecimento claro, alternativas comparadas, e a garantia de que as soluções baseadas na natureza são verdadeiramente consideradas, sem comprometer a segurança.
Como cidadã e deputada eleita pelo Faial, não posso ficar indiferente. Porto Pim não é apenas pedra e areia, é acima de tudo memória, que no futuro merece uma decisão que una proteção e respeito por aquele enorme legado.
Há lugares que, quando se perdem, não mais se recuperam. E se é certo que algo tem de ser feito, que se faça com coragem para ouvir e com responsabilidade para escolher.