O mundo parece andar sem rei nem roque. De um lado, ditadores com décadas de poder. Do outro, líderes eleitos que confundem legitimidade com licença para tudo. E no meio, povos exaustos, agarrados à esperança como quem se agarra a um bote no meio de um naufrágio.
A queda do regime de Nicolás Maduro, a acontecer, é um momento importante. É, para muitos, um alívio. Para quem viveu anos sem pão, sem luz, sem dignidade, a saída de cena de um ditador nunca pode ser tratada com indiferença. Mas há formas e formas de fazer história. E esta parece ter sido escrita à pressa, com tinta de interesses e papel de petróleo.
Não se combate autoritarismo com autoritarismo. Não se liberta um povo ao som de mísseis, nem se recupera a justiça internacional atropelando-a. Há quem festeje o que aconteceu. E há razões para isso. Mas também há quem veja nesta operação uma porta escancarada para um novo tipo de dependência — talvez mais silenciosa, mas não menos perigosa.
É esse o meu verdadeiro medo: que o mundo normalize a ideia de que, desde que se atinja um fim “bom”, qualquer meio serve. Que se troque a ditadura interna pela tutela externa. Que o Direito ceda sempre que a força grita mais alto.
Maduro não é vítima. É parte do problema. Mas os que agora o derrubam à margem das leis internacionais podem ser o problema de amanhã.
Caro ouvinte, a história está cheia de “libertadores” que chegaram de botas sujas e mãos cheias. E que depois nunca mais saíram.
Não é só a Venezuela que está em risco. É a ideia de mundo que queremos deixar aos que vierem depois.
Porque quando a força decide tudo, a liberdade deixa de ser uma escolha. Passa a ser uma decoração.
(Crónica escrita para Rádio)