Há cartazes que anunciam eventos e há cartazes que revelam uma visão do mundo e da História. Este, dedicado aos 50 anos da Autonomia, pertence claramente à segunda categoria, mas pela negativa.
À primeira vista, trata-se de uma conferência comemorativa, um momento que deveria convocar memória plural, diversidade de protagonistas e respeito pela complexidade histórica do processo autonómico. Mas basta percorrer o programa para perceber que não estamos perante um exercício de evocação democrática. Estamos perante um exercício de revisionismo a que o PPD já nos habituou e no qual é perito.
Tudo como se a Autonomia tivesse sido pensada por uns, construída por uns e legitimada por uns. Enfim, pela malta do motaamarelismo.
A História dos Açores (e da Madeira) não se escreve a uma só voz. Sempre que alguém tenta transformá-la num monólogo, não está a simplificá-la; está a empobrecê-la.
Mais do que uma conferência, este cartaz sugere uma pedagogia implícita: ensinar às novas gerações uma narrativa higienizada, linear e conveniente, onde o contraditório surge apagado e a alternância quase parece um detalhe menor da democracia. Mas a memória política dos Açores não é matéria moldável ao sabor das conveniências do presente.
Há quem se recorde bem de quando fazer oposição exigia mais do que discordar. Exigia coragem cívica. Quando as vozes críticas não eram celebradas em auditórios, mas toleradas com desconforto. Quando organizar, reunir e afirmar uma alternativa implicava enfrentar um poder seguro da sua própria inevitabilidade.
Para quem cresceu politicamente combatendo o motaamarelismo, nas suas múltiplas dimensões, a partir das fileiras da oposição quase “clandestina”, que tinha sedes nas ruas de calçada de Ponta Delgada, que acantonou em frente ao Palácio de Sant’Ana e distribuiu jornais no silêncio da noite, não é aceitável que meia dúzia de iluminados, herdeiros políticos desse tempo bafiento, tentem passar uma esponja sobre o que de facto são os Açores políticos do pós-25 de Abril.
Esses tempos não são assim tão distantes que possam ser varridos para rodapés da História. Celebrar a Autonomia deveria ser, antes de tudo, um exercício de maturidade democrática: reconhecer que o nosso percurso coletivo foi feito de confronto, sim, mas também de aprendizagem institucional e construção plural. Quem transforma essa trajetória numa narrativa exclusiva não está apenas a interpretar o passado; está a disputar o significado do futuro. Porque controlar a memória é sempre uma forma de tentar controlar o que vem depois.
E convém dizê-lo com clareza: a Autonomia não tem donos e não admite certidões partidárias de origem. Pertence, sim, aos açorianos e açorianas, a todos e a todas que contribuíram para o que somos hoje, aqui ou na décima ilha espalhada pelo mundo.
Para que fique claro, a memória coletiva não se apaga por omissão — era o que mais faltava. Ao fim ao cabo, a democracia respira melhor quando resiste à tentação dos relatos únicos.
Não nos apagam. Não nos reescrevem. E, certamente, não nos silenciam.