A atual administração Trump representou a institucionalização de um populismo de extrema-direita que, ao chegar ao poder, revelou a sua verdadeira natureza: frágil na economia real, agressivo para com a democracia e indulgente com interesses económicos concentrados.
O contraste entre a promessa feita em campanha e a prática governativa é particularmente cruel para quem mais acreditou nela.
No plano interno, os custos económicos estão a recair sobretudo sobre o povo que nele acreditou.
O ataque à imigração, apresentado como proteção do emprego nacional, provocou escassez de mão-de-obra em setores essenciais como agricultura, construção, indústria e serviços, pressionando custos e encarecendo bens de primeira necessidade.
O aumento do custo de vida atingiu de forma mais incisiva as classes médias e baixas, precisamente aquelas que tinham sido mobilizadas contra as "elites".
O protecionismo nacionalista agravou esse efeito. Tarifas comerciais penalizaram pequenas e médias empresas, destruíram empregos em regiões industrializadas e aprofundaram desigualdades regionais.
A promessa de reindustrialização foi substituída por maior desemprego e precariedade, enquanto os ganhos se concentravam em setores financeiros e grandes grupos económicos menos expostos à economia real.
Também no plano social, os custos foram assimétricos. O enfraquecimento do acesso aos serviços públicos deixou milhões de cidadãos mais vulneráveis, sobretudo nas zonas rurais e periferias urbanas, precisamente nos mesmos territórios onde o discurso populista teve maior sucesso eleitoral.
A redução do Estado Social não foi acompanhada por alternativas reais, apenas por maior insegurança individual.
Perante estes resultados, o poder não corrigiu o rumo. Pelo contrário, passou a remover obstáculos. A comunicação social foi tratada como inimiga pública e o poder judicial como entrave ao exercício do poder absoluto sem respeito pela lei.
A estratégia é clara: condicionar e atacar as instituições que limitam o exercício absoluto do poder.
Em relação ao poder económico, apesar do discurso contra o "sistema" e as "elites", as políticas adotadas protegeram os grandes interesses financeirose grupos económicos que coincidem com os seus principais financiadores políticos.
Reduções fiscais regressivas, desregulação e proteção seletiva beneficiaram quem menos precisava de proteção pública.
O populismo da extrema-direita revelou-se, assim, não como alternativa, mas como um instrumento para reforçar desigualdades sob uma narrativa de revolta popular.
No plano internacional, a lógica é idêntica: abandono de princípios, desprezo pelo direito internacional e valorização da força como critério de legitimidade.
Ao substituir regras por relações de poder, contribuem para um mundo mais instável, onde a cooperação cede lugar à imposição.
O alerta para Portugal exige muita atenção e rigor. O armamentário que levou Trump ao poder é o mesmo que é partilhado e usado pela extrema-direita em Portugal e na Europa.
Começa com a exploração do medo e do ressentimento: a promessa da resposta simples para problemas complexos, a oposição entre "povo honesto" e "elites corruptas", a identificação da imigração como causa de todos os males e a desconfiança no Estado Social apresentado como privilégio dos "outros".
É um discurso eficaz em campanha porque oferece culpados claros e soluções fáceis.
No entanto, a história recente demonstra que quando o populismo de extrema-direita chega ao poder não falha por incompetência acidental, mas por incompatibilidade estrutural coma democracia.
Promete devolver poder ao povo, mas para governar precisa de condicionar tudo o que o limita: imprensa livre, justiça independente e instituições de controlo.
Mais trágico ainda é constatar que os primeiros a perder são aqueles que mais acreditaram. Os trabalhadores, as classes médias empobrecidas, os territórios esquecidos - mobilizados com promessas de proteção, dignidade e prosperidade - acabam confrontados com mais insegurança, menos direitos e maior desigualdade.
Enquanto isso, os verdadeiros beneficiários são os interesses económicos concentrados, os seus financiadores partidários e setores imunes às consequências das decisões que impõem aos outros.
O caso da administração Trump não é uma exceção histórica, nem um desvio exótico da democracia liberal.
É um aviso. Um aviso sobre como o medo pode ser transformado em capital político, como a frustração legítima pode ser instrumentalizada e como a erosão democrática raramente começa com tanques na rua - começa com aplausos, simplificações e a promessa de que alguém falará "em nome do povo".
Portugal não está imune a este processo. Os contextos adaptam-se, mas o guião é o mesmo.
A escolha não é entre a indignação e o conformismo; é entre uma democracia imperfeita que se corrige e um atalho autoritário que se fecha em si próprio.
Quando a desilusão chega, já é tarde para recuperar o que foi cedido com facilidade.
A defesa da democracia não é abstrata. É concreta, quotidiana e exige memória.
Porque quando se trocam a complexidade pela raiva e as instituições por líderes providenciais, o custo é pago na vida real, essencialmente pelos mesmos que foram convencidos que não tinham nada a perder.