Opinião

Uma geração à procura de futuro

Os Açores vivem hoje uma das mais preocupantes crises silenciosas da sua história recente: a crise da qualificação e das oportunidades para os jovens.
Durante demasiado tempo, fomos ouvindo anúncios de novos cursos, metas ambiciosas e números apresentados como sinais de sucesso. Mas a realidade insiste em desmentir a propaganda. Porque aquilo que verdadeiramente importa não é a quantidade de cursos existentes, mas sim perceber se eles estão efetivamente a transformar vidas.
E os sinais são preocupantes.
As empresas açorianas continuam a alertar para a falta de mão de obra qualificada em áreas fundamentais da nossa economia. Hotelaria, construção civil, tecnologias, indústria ou economia azul enfrentam diariamente dificuldades em encontrar trabalhadores preparados. Ao mesmo tempo, milhares de jovens permanecem afastados da escola, da formação e do mercado de trabalho.
Há algo profundamente errado quando coexistem empresas sem trabalhadores e jovens sem futuro.
Mais grave ainda é perceber que as próprias escolas profissionais têm vindo a alertar para os problemas na definição da oferta formativa. Há anos que criticam mecanismos desajustados da realidade das ilhas e das necessidades concretas das empresas, o que faz com que não raras vezes os cursos abertos não acompanhem aquilo que o mercado realmente precisa.
E quem acaba por pagar o preço dessa desarticulação são os jovens açorianos.
Os números mais recentes mostram um aumento muito significativo dos jovens NEET — jovens que não estudam, não trabalham e não frequentam qualquer formação. Em apenas um ano, passaram de cerca de 6.200 para mais de 8.200.
Mais de dois mil jovens acrescentados à incerteza; mais de dois mil jovens afastados da possibilidade de construir um percurso estável; mais de dois mil jovens que correm o risco de acreditar que o futuro não passa pelos Açores.
Paralelamente, a Região continua a apresentar uma das mais elevadas taxas de abandono escolar precoce do país. Um em cada cinco jovens abandona a escola antes do tempo e estes números deviam preocupar-nos muito mais do que aquilo que parecem preocupar.
Porque por detrás de cada estatística existe uma história. Existe um jovem que desistiu. Uma família sem respostas. Um talento perdido. Um sonho adiado.
Nenhuma Região consegue desenvolver-se verdadeiramente quando falha na qualificação da sua população. Nenhuma economia cresce de forma sustentável quando os seus jovens deixam de acreditar que vale a pena ficar.
Os Açores precisam de uma estratégia séria, ambiciosa e profundamente humana para a educação e qualificação profissional. Precisam de políticas capazes de aproximar escolas, empresas e jovens. Precisam de acompanhamento, orientação vocacional e respostas formativas ajustadas às necessidades reais de cada ilha e de cada setor económico.
Mas acima de tudo, precisam de voltar a colocar os jovens no centro das decisões.
Porque os jovens açorianos não precisam de propaganda, mas de sim de oportunidades reais. Precisam, mais do que nunca, de sentir que podem construir uma vida digna na sua própria terra e isso, é da responsabilidade de todos nós.