Opinião

Papel do mar na coesão dos Açores

O verão de 2026 volta a expor as fragilidades de uma política de mobilidade que penaliza sobretudo as ilhas mais pequenas dos Açores.

A insistência desta coligação em concentrar quase toda a resposta no transporte aéreo revela uma preocupante incompreensão da realidade arquipelágica.

Fica cada vez mais claro que, para José Manuel Bolieiro, o mar dos Açores serve apenas para discursos em conferências e fotografias de ocasião, mas continua, incompreensivelmente, a não servir para ligar ilhas, transportar pessoas e garantir coesão.

Num território disperso por nove ilhas, depender quase exclusivamente do avião é um erro estratégico. É também uma opção política que agrava desigualdades e torna as ilhas mais vulneráveis ao mau tempo, às limitações aeroportuárias e à falta de lugares nas épocas de maior procura.

A coesão não se mede por discursos ou verbas anunciadas. Mede-se pela capacidade real de deslocar pessoas, transportar mercadorias, garantir abastecimentos e criar oportunidades equivalentes em todo o arquipélago. E é aí que a atual governação tem falhado.

Enquanto se anunciam milhões para a coesão, continua a faltar uma verdadeira estratégia para o transporte marítimo inter-ilhas. Não se percebe esta teimosia. O mar, que sempre uniu os Açores, é hoje tratado, lá fora, como um exemplo de sustentabilidade, mas cá dentro é, na verdade, visto, por quem nos governa, como um recurso secundário quando deveria estar no centro da mobilidade regional.

Nenhum arquipélago constrói coesão territorial ignorando o seu principal ativo geográfico. Os Açores não podem continuar de costas voltadas para o mar.

Perante problemas que se repetem todos os verões, o Governo Regional responde com medidas avulsas e sem coragem para assumir uma verdadeira estratégia marítima.

As verbas da coesão devem traduzir-se em serviços concretos: um transporte marítimo regular, previsível e eficiente, capaz de ligar as nove ilhas durante todo o ano e assegurar a mobilidade de pessoas e bens.

É legítimo perguntar onde estão hoje os responsáveis políticos que, há apenas seis ou sete anos, exigiam mais ligações marítimas e classificavam o serviço existente como ineficaz. Onde estão agora? Que dizem perante este sistema remendado, incapaz de responder às necessidades reais das ilhas e dos açorianos?

Para as ilhas mais pequenas, esta é uma questão de justiça territorial e igualdade de oportunidades. Sem ligações adequadas, torna-se mais difícil fixar população, criar emprego e combater o sentimento de abandono.

A verdadeira coesão açoriana exige, esta sim, uma mudança de paradigma, ou seja, ver o mar não como uma barreira e assumir, de uma vez por todas, como a principal via de comunicação entre as ilhas.

Enquanto o Governo Regional ignorar esta evidência, os discursos sobre coesão continuarão a ser apenas conversa fiada.