A expressão do titulo é rude, admito. Mas talvez por isso seja tão eficaz. Traduz, com brutalidade quase perfeita, uma atitude que vejo crescer nos Açores e em muitos outros locais. Queremos soluções para os problemas, desde que essas soluções não nos incomodem em demasiado.
Queremos resolver o problema das pessoas em situação de sem-abrigo em Ponta Delgada. Achamos, e bem, que é um drama humano, social e urbano. Reconhecemos que não podemos continuar a passar por pessoas a dormir nas ruas, nas entradas dos prédios, nos jardins ou debaixo de arcadas, como se fossem parte da paisagem.
Mas depois surge o “mas”.
É preciso criar respostas, sim. Centros de acolhimento, acompanhamento social, respostas de saúde mental, reinserção, habitação assistida, equipas de rua, programas de proximidade. Mas que não seja no meu bairro. Nem na minha rua. Nem na minha freguesia. O ideal, para muitos, seria encontrar um lugar suficientemente escondido, longe dos olhares, longe das casas, longe do comércio, longe dos turistas e, sobretudo, longe de nós.
Como se a dignidade humana pudesse ser varrida para debaixo de uma carpete.
O mesmo acontece com a habitação.
Escrevem-se laudas sobre a falta de casas, os preços incomportáveis, os jovens que não conseguem sair de casa dos pais, as famílias que vivem apertadas, os trabalhadores que já não encontram renda compatível com o salário. Todos concordamos que é preciso construir mais habitação. Todos dizemos que a habitação é uma prioridade. Todos repetimos que, sem casas, não há futuro.
Mas, novamente, aparece o “mas”.
Mais habitação, sim, mas não ali. Não naquele terreno. Não naquela encosta. Não naquele lote que me tapa a vista. Não perto da minha propriedade. Não se for habitação pública. Não se for para pessoas com menos rendimentos. Não se trouxer mais carros. Não se trouxer mais gente.
O mesmo se passa com o turismo.
Todos elogiamos o turismo. Mais rendimento, melhor economia, mais emprego, mais investimento, mais comércio, mais movimento. Durante anos habituámo-nos a falar do turismo como uma oportunidade e, em muitos aspetos, ele foi e continua a ser uma oportunidade.
Mas, sempre o “mas”.
Desde que eu continue a ter lugar nos restaurantes. Desde que não haja demasiada gente nas praias e nas ruas. Desde que não haja barulho. Desde que os carros não encham as lagoas, os miradouros e os acessos. Desde que o turista exista, mas não incomode. Desde que traga rendimento, mas não altere a rotina.
No fundo, queremos pessoas, vida, progresso, condições e ganhos económicos.
Mas só se isso não chatear a nossa pacatez.
Quanto à dos “outros”, talvez nos preocupe menos.
E é aqui que está o problema.
Porque uma comunidade não se constrói apenas com discursos sobre o que é necessário fazer. Constrói-se também com a capacidade de aceitar que algumas soluções terão de existir perto de nós. Porque uma sociedade não pode querer apenas os benefícios do progresso e empurrar todos os seus custos para o lado.
E no fim, a pergunta talvez seja simples.
Queremos mesmo resolver os problemas?
Ou queremos apenas que eles deixem de nos incomodar?