Opinião

Portugal sem Europa

Na semana em que se assinala o Dia da Europa, no ano em que Portugal celebra 40 anos de adesão europeia e os Açores 50 de Autonomia, vale a pena imaginar o País e Região fora da União Europeia. Não por nostalgia nem por euroceticismo, mas para medir, pela ausência, o peso de uma escolha que muitos tomam como inevitável.

Em 1974, Portugal saía de quase meio século de ditadura com uma economia frágil, agricultura atrasada, pobreza extensa, baixa escolaridade e infraestruturas insuficientes. A adesão às Comunidades Europeias, em 1986, não foi apenas uma decisão político-diplomática. Foi um programa de modernização acelerada, sustentado por regras, financiamento e exigência institucional.

Sem esse enquadramento, seríamos provavelmente um país mais pobre, fechado, desigual e vulnerável. Os fundos europeus ajudaram a construir estradas, escolas, universidades, hospitais, saneamento, ciência e equipamentos sociais. Entre 1986 e 2026, Portugal recebeu mais de 167 mil milhões de euros em fundos europeus. Também nos Açores a Europa não é uma abstração. Está nas escolas, nos portos, em quase todas as infraestruturas, nos programas de mobilidade, nos apoios à agricultura, nas pescas, na proteção civil e nas oportunidades abertas aos mais jovens. Bruxelas pode estar longe, mas a distância geográfica não tem de ser distância política. Ser açoriano é também ser europeu. E isso dá direitos, mas também requer participação.

É por isso que, neste Dia da Europa, num momento em que ela se confronta com tantos desafios, é fundamental envolver os jovens, aqueles que já nasceram com este dado adquirido. A União Europeia é, antes de tudo, um projeto de paz, de cooperação e de desenvolvimento. Não é perfeita. Mas continua a ser o projeto político que mais transformou Portugal e os Açores nos últimos séculos. Cabe agora às novas gerações não olhar para a Europa como algo apenas que “nos dá”, mas como algo que também nos pertence e que ajudamos a construir. Portugal sem União Europeia não seria uma Noruega atlântica nem uma Suíça ibérica. Seria uma economia semiperiférica, com menos oportunidades, menos mobilidade para os jovens, maior fragilidade financeira e menor peso internacional. E a democracia portuguesa teria perdido uma âncora decisiva. A Europa não a criou, mas ajudou a protegê-la, a conformar instituições e a acelerar direitos e isso não é de somenos. A pertença à UE não resolveu todos os nossos problemas, mas é parte essencial da resposta à velha pergunta portuguesa sobre como se governa um país pequeno, periférico, com poucos recursos e grandes ambições.

A lógica da Avestruz

Esta reflexão também serve para a vida regional. Há pouco mais de dois anos, a coligação PSD/CDS/PPM afirmava ser a força capaz de um “futuro de confiança”, assente numa “verdadeira mudança”, numa economia em crescimento, no controlo da dívida, na execução dos fundos comunitários e numa governação finalmente capaz de fazer “muito e bem pelos Açores”. Era o tempo das certezas absolutas, dos discursos triunfais e das acusações fáceis à oposição. Hoje, o Presidente do Governo está cansado de governar e decidiu despoletar uma crise política com os seus parceiros de coligação, em vez de providenciar respostas para os açorianos que sentem todos os dias, na carteira, os efeitos da crise real que assola o mundo.

Com desafios financeiros autoimpostos por uma gestão à deriva, com a privatização da Azores Airlines em “águas de bacalhau”, a saúde em permanente tensão, combustíveis em máximos históricos, execução de fundos europeus incipiente e com uma revisão da Lei de Finanças Regionais inexistente, percebe-se melhor por que razão o Presidente do Governo prefere focar-se no seu futuro político e não nos problemas reais dos Açorianos. Percebe-se, mas não se desculpa! Bolieiro pode não gostar dos atuais parceiros (e até querer trocá-los pelo Chega), mas foi ele que os escolheu para a dança em que mergulhou a Região e é ele o primeiro responsável pela sua governação. Por isso, hoje, amanhã, ou quando for, é ele que será responsabilizado pelos açorianos, antes de qualquer outro.

A estabilidade não é um adorno nem um fim em si mesma. E quando há problemas reais por resolver, esperam-se soluções e liderança, não desculpas nem fugas para a frente. Não vale a pena enfiar a cabeça na areia como a avestruz. Neste mundo perigoso e incerto, é necessário rumo e liderança. Mas, para isso, é necessário ter uma estratégia e um desígnio regional que não passe por querer deixar tudo na mesma.

Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu