O anúncio do reforço da operação aérea nos Açores para o verão IATA 2026 foi apresentado como uma boa notícia para a mobilidade interilhas e para a economia regional. Os 198 voos extraordinários adicionais e um discurso oficial centrado na coesão territorial criaram a expectativa de que todas as ilhas beneficiariam desse incremento.
No entanto, feita uma análise mais cuidada às novidades anunciadas, conclui-se que a Ilha Graciosa volta, uma vez mais, a ficar de fora, confirmando os nossos piores receios.
Parece que esses reforços incidirão, essencialmente, nas rotas com taxas de ocupação superiores a 90%, nomeadamente Ponta Delgada–Terceira, Ponta Delgada–Pico, Ponta Delgada–Horta e Ponta Delgada–Flores. Esta opção deixa de fora as ligações à Graciosa, apesar de anunciada para todas as ilhas.
Fica claro que este anúncio, aparentemente bondoso, não garante previsibilidade para quem vive, investe ou pretende visitar a Ilha Graciosa e muito menos para quem necessita de sair para tratamentos médicos.
Vão reforçar apenas as rotas já saturadas e assim as ilhas com mais oferta têm mais procura e, por isso, continuam a ser reforçadas. As ilhas mais pequenas, como a Graciosa, mantêm-se com oferta limitada, o que condiciona a procura e serve depois de argumento para não se fazer qualquer reforço.
Assim se perpetua a assimetria interna no arquipélago, em contradição com os princípios da coesão regional tantas vezes invocados no discurso político.
Os residentes continuarão a enfrentar dificuldades acrescidas para deslocações essenciais, como acontece por questões de saúde, ou férias, ou então, como acontece esta semana com as Festas de Santo Cristo em S. Miguel, em muitos graciosenses não conseguem lugares disponíveis.
Também o setor turístico, que tem sentido dificuldades em se afirmar, vê novamente limitadas as suas possibilidades de crescimento. Fica comprometida a captação de fluxos para eventos organizados localmente, ou ainda para as diversas festas de verão, nomeadamente Santo Cristo, situações para as quais se exigem ligações aéreas fiáveis.
Enquanto andamos a gritar em Lisboa que a acessibilidade aérea (com o exterior) não é um luxo, é um direito de cidadania, cá dentro, as decisões da SATA, com o aval do atual Governo, parecem guiadas exclusivamente por critérios de rentabilidade, esquecendo-se que deve incorporar uma dimensão política e social.
que assegure igualdade de oportunidades entre ilhas, independentemente da sua dimensão ou peso demográfico.
Não podemos aceitar esta política cega em que se promove o reforço para uns e, ao mesmo tempo, abandona-se outros.