Há problemas que não se anunciam de um dia para o outro – vão-se acumulando, ganhando densidade, até se tornarem impossíveis de ignorar, por mais que denunciemos o assunto, que reclamemos e exijamos soluções, o resultado tem sido sempre o mesmo, ignoram-nos e desprezam a ilha de Santa Maria e quem cá vive. É precisamente isso que está a acontecer com as acessibilidades à ilha de Santa Maria.
Os sucessivos atrasos, cancelamentos e alterações de aeronaves nas ligações aéreas deixaram há muito de ser episódios isolados. Tornaram-se, antes, um padrão inquietante que mina a confiança dos cidadãos e compromete a previsibilidade de quem vive, trabalha ou investe na ilha. E quando a incerteza passa a ser regra, não estamos perante uma falha pontual: estamos perante um problema estrutural, que não será difícil adivinhar se tornará caótico a partir de agora até ao fim do verão.
Santa Maria tem uma especificidade que agrava qualquer perturbação – a inexistência de uma ligação marítima regular de passageiros, por decisão controversa e inexplicável por parte de uma tutela, que não surpreende, por ser objetivamente fora do nosso tempo e de uma teimosia centralista, que critérios economicistas não chegam para explicar, só podemos concluir que poderão ser memórias de um tempo em que um guarda chuvas foi notícia, e que provocou tal espírito de revanchismo que passados quarenta anos ainda perdura.
Sem alternativa, o transporte aéreo deixa de ser apenas o principal meio de ligação e transforma-se numa dependência absoluta. Ora, num sistema sem redundância, qualquer falha tem um impacto brutal. É exatamente isso que se tem verificado: uma ilha inteira refém da instabilidade de um único meio de transporte.
As consequências fazem-se sentir no quotidiano dos marienses. Não se trata apenas de viagens adiadas ou incómodos momentâneos e passageiros. Está em causa o acesso a cuidados de saúde, o cumprimento de compromissos profissionais, a frequência de atividades educativas, o simples direito de estar com a família. Quando viajar deixa de ser previsível, a vida deixa de ser planeável. E isso gera frustração, insegurança e, inevitavelmente, um sentimento de desigualdade face a quem vive noutras ilhas com maior regularidade de ligações.
Mas os efeitos não se ficam pela esfera individual. A economia local ressente-se de forma clara. O turismo, setor vital para ilhas de pequena dimensão, depende da confiança e da previsibilidade. Quem escolhe um destino quer saber que consegue lá chegar – e sair – sem sobressaltos. Se essa garantia falha, a escolha tende a ser outra. Também as empresas locais enfrentam custos
acrescidos e dificuldades logísticas, fragilizando ainda mais um tecido económico que já opera em condições insulares exigentes, sobretudo as empresas marítimo-turísticas, que vêm fugir muitos dos potenciais clientes, exatamente porque falha a previsibilidade e a certeza. São voos pomposamente anunciados em escalas e em número que depois não se realizam, bem como equipamentos de menor dimensão que realmente transportam muito menos pessoas e com menor capacidade de carga.
Perante este cenário, há uma questão incontornável: como é possível que uma ilha com estas características continue sem uma solução de transporte complementar? A ausência de ligação marítima de passageiros não é apenas uma lacuna operacional, é uma falha estratégica. Ninguém defende que o transporte marítimo substitua o aéreo, mas é difícil aceitar que não exista sequer como alternativa de contingência, capaz de reduzir o risco e reforçar a resiliência do sistema.
Naturalmente, o foco não pode ficar apenas na crítica. Há um caminho que precisa de ser trilhado com seriedade e sentido de responsabilidade. Desde logo, é imperativo reforçar a fiabilidade do transporte aéreo. Isso implica planeamento adequado, gestão eficaz de recursos e, sobretudo, compromisso com níveis de serviço que respeitem as necessidades das populações. A transparência na forma como são geridas as disrupções é igualmente essencial para restaurar confiança.
Ao mesmo tempo, é urgente reabrir o debate sobre a mobilidade marítima de passageiros para Santa Maria. Não como promessa vaga ou solução avulsa, mas como parte integrante de uma política de acessibilidades que tenha em conta a realidade específica de cada ilha. A coesão territorial não se mede em discursos inócuos, mede-se na capacidade de garantir que todos os cidadãos têm acesso efetivo às mesmas oportunidades e isso só se consegue com vontade política, que desapareceu desde 2020.
No fundo, o que está em causa é mais do que transportar pessoas entre ilhas. É assegurar que Santa Maria não fica, progressivamente, mais distante – não apenas em termos geográficos, mas também sociais e económicos. É garantir que os marienses não sintam, como agora sentem, que vivem numa Região de primeira e de segunda velocidade, apenas por inabilidade de quem gere o nosso destino coletivo.
A autonomia constrói-se todos os dias através de decisões concretas. E uma delas, talvez das mais básicas, é garantir que ninguém fica isolado por falhas evitáveis no sistema de transportes. Santa Maria não pode continuar dependente da sorte ou das circunstâncias. Uma ilha não se mede apenas pela sua dimensão – mede-se, sobretudo, pela atenção que lhe é dada.
E, neste caso, essa atenção é nenhuma e nos mais variados sectores, que revoltam qualquer um e que já devia ter chegado há muito tempo.