Opinião

O que já se sabia

Há notícias que parecem novas, mas que, na verdade, apenas confirmam aquilo que já se sabia.

O anúncio do fim da coligação no fim desta legislatura não é propriamente uma surpresa. É antes a confirmação de um desgaste que, ao longo do tempo, foi sendo percebido, mesmo que nem sempre assumido com clareza.

Sempre se soube — muitas vezes em surdina — que existiam divergências internas. Diferenças na leitura de áreas essenciais da governação, tensões entre protagonistas e sinais de que nem tudo funcionava com a harmonia que se procurava transmitir.

E isso, por si só, nem é o maior problema. As coligações vivem de equilíbrios. Fazem-se de diferenças, de negociação, mas sobretudo de compromisso com as pessoas. Não se exige que pensem todos da mesma forma. Exige-se, isso sim, que consigam transformar essas diferenças em decisões.

E é aqui que a questão ganha importância. Quando a gestão dessas divergências falha, o que surge não é apenas desgaste político. Surgem atrasos, indecisões, bloqueios. Surgem processos que demoram mais do que deviam, respostas que chegam tarde e oportunidades que se perdem.

Porque há uma diferença entre governar com divergências e governar apesar delas. Quando as divergências são empurradas durante demasiado tempo, não desaparecem. Acumulam-se, ganham peso e acabam por condicionar a própria capacidade de decidir.

Por isso, mais do que olhar para o fim, importa olhar para o percurso. Perceber como se passou de um entendimento inicial para o cenário atual não é apenas uma questão política. É uma questão de avaliação da governação.

Porque quando tudo isto vem ao de cima, quando as críticas internas surgem com mais liberdade e as diferenças se tornam evidentes, a dúvida instala-se: quantas coisas ficaram por fazer e por decidir durante esse tempo todo?

 

(Crónica escrita para Rádio)