Opinião

Páscoa

A Páscoa é um tempo de reflexão sobre o sacrifício. Um tempo de contenção, de consciência sobre aquilo que realmente importa.

Mas este ano, a ideia de sacrifício parece ter saído do plano simbólico e entrado de forma demasiado concreta na vida das pessoas.

Um pouco por todo o mundo, decisões políticas estão a traduzir-se em custos reais. Custos que não ficam nos discursos, chegam às casas, às contas do mês, à incerteza com o futuro.

Fala-se de conflitos, de sanções, de estratégias globais, de interesses nacionais. Mas, raramente se fala com a mesma clareza sobre quem suporta o peso dessas decisões.

E nós sabemos que são sempre os mesmos! São as pessoas comuns, que não participam nestas decisões, mas vivem as suas consequências.

Também por isso, esta reflexão não pode ficar apenas no plano global: os Açores sabem bem o que significa viver com limitações, com equilíbrios frágeis, com decisões que têm impacto direto no quotidiano. E sabem também que, quando a margem começa a ser curta, qualquer erro pesa mais. Talvez por isso devêssemos olhar para este tempo com alguma exigência acrescida.

Sacrifício não pode ser apenas aquilo que se pede aos outros. Não pode ser apenas o resultado de decisões tomadas à distância, sem medir devidamente as suas consequências. Sacrifício, quando é inevitável, tem de ser justo, explicado e partilhado.

A política não pode pedir contenção sem dar exemplo. Não pode exigir esforço sem assumir responsabilidade. E a Páscoa lembra-nos isso mesmo: que há momentos em que é preciso parar e pensar no impacto de algumas escolhas.

Quem me dera que alguns líderes mundiais e regionais percebessem que as decisões que andam a tomar tem um custo. E que nós, com sacrifício, vamos pagar.

Uma Santa Páscoa a todos.

 

(Crónica escrita para Rádio)