Opinião

As Democracias vivem de resultados

Eleições na Europa

A última semana ficou marcada por vários momentos eleitorais na Europa que dizem mais do que parecem à primeira vista. Num contexto de incerteza económica, social e geopolítica, estas eleições funcionaram como um teste ao pulso democrático e às prioridades dos cidadãos. Em França, as eleições locais voltaram a mostrar a importância das políticas de proximidade e da resposta concreta às pessoas. Em Itália, o referendo promovido por Giorgia Meloni traduziu-se numa derrota clara para uma agenda populista que procurava consolidar poder. E na Dinamarca, as eleições legislativas revelaram uma escolha consciente sobre o modelo de governação e o papel do Estado social. Há diferenças entre países, mas há também um sinal comum: em vários destes contextos emergem propostas progressistas que colocam no centro a justiça social, a coesão e a resposta às desigualdades; num tempo em que tantos apostam na divisão, há também quem escolha soluções mais equilibradas e solidárias.

O estado da democracia

Mas este sinal não pode esconder a realidade mais ampla. O mais recente relatório do V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, é claro: a democracia no mundo recuou para níveis de há quase meio século. Hoje, três em cada quatro pessoas vivem em regimes autocráticos. A liberdade de expressão está a deteriorar-se em dezenas de países e até democracias que durante décadas foram referências enfrentam hoje processos evidentes de erosão institucional. Isto não acontece por acaso: quando a política deixa de responder às necessidades, quando as instituições se afastam da vida das pessoas, abre-se espaço ao populismo, à desinformação e à desconfiança. Portugal e os Açores não estão imunes a esta tendência e isso exige responsabilidade. Defender a democracia não é apenas invocar princípios, é garantir que ela funciona, que decide e que melhora a vida das pessoas.

E nos Açores

Também nos Açores, a realidade exige mais do que discurso. O Presidente do Governo Regional garantiu, no início, que não governaria a desculpar-se com a herança recebida; hoje, faz precisamente isso. Quando a resposta falha, a explicação é sempre o passado — isso não é governar, é justificar. Dizer que desconhece atrasos de pagamentos nas empresas públicas levanta uma dúvida inevitável: ou não se conhece a realidade, ou não quer reconhecer o problema, e qualquer uma dessas hipóteses é má para a Região. Há empresas à espera de pagamentos, fornecedores que acumulam dificuldades e uma economia que precisa de respostas, não de desculpas. Governar é assumir, decidir e resolver. Num tempo em que a democracia é posta à prova dentro e fora da Europa, há uma exigência que não muda: proximidade, responsabilidade e capacidade de resposta.

Congresso do PS

Este fim de semana decorre o Congresso Nacional do PS, cuja Comissão Organizadora foi presidida pelo líder do PS/Açores, Francisco César. Para além do bom trabalho reconhecido no plano nacional, por cá, a ferocidade com que vários dirigentes da coligação atacam o líder da oposição só pode significar duas coisas: por um lado, preocupação com o evidente desgaste do governo regional, provocado pela incapacidade em resolver os problemas; por outro, é sinal de que César está a incomodar o poder laranja.

 

Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu