Duas semanas depois do início da operação “Last Call”, o que mais inquieta já não é apenas a investigação em curso. É a forma como o Presidente do Governo Regional dos Açores escolheu reagir: tarde, sob pressão e ao lado do essencial.
José Manuel Bolieiro não falou quando devia. Falou apenas uma semana depois, quando confrontado pelos jornalistas. E, quando falou, preferiu centrar-se no que menos importava aos açorianos naquele momento: reafirmar a sua “confiança pessoal e política” na Secretária Regional do Turismo e garantir a “total abertura” da administração para colaborar com a investigação.
Ora, isso não chega. E, sobretudo, não responde ao que verdadeiramente interessa. Colaborar com a Justiça não é favor nem gesto excecional. É uma obrigação elementar de qualquer governo democrático. E declarar confiança política numa governante sob cuja tutela se encontram áreas atingidas por buscas não é esclarecimento. É apenas uma opção política assumida sem antes prestar à Região as explicações devidas.
O que Bolieiro deveria ter dito era outra coisa. Deveria ter reconhecido a gravidade institucional do momento, explicado o enquadramento político da situação e assumido a necessidade de escrutínio sobre decisões, contratos, procedimentos e circuitos de financiamento.
Não foi isso que fez. Bolieiro confirmou o que o silêncio já indiciava, a sua incapacidade para enfrentar com frontalidade uma situação grave. Um presidente do Governo não está no cargo para os dias fáceis. Está para os momentos em que são precisos autoridade, clareza e sentido de Estado.
A perceção de que existiu uma mão política invisível a operar neste processo é, por isso, cada vez mais difícil de afastar. E o que legitimamente se pergunta é se a entrada do Governo Regional na Visit Azores foi para reforçar a promoção externa da Região com transparência e critério, ou para abrir espaço a zonas cinzentas de influência?
Entretanto, no setor do Turismo, as perguntas de fundo continuam, e a titular da pasta, fragilizada politicamente, não está em condições de poder dar respostas credíveis: os pagamentos à Visit Azores para promoção externa, diferidos até 2028, vão ser repensados e reforçados face ao novo “contexto hostil”? Face à saída da Ryanair quais as medidas em execução por parte do Governo para atrair novas companhias aéreas a operar durante todo o ano na Região? O que está a ser executado para mitigar a época baixa deste ano que se avizinha dramática? Estão a verificar-se silêncios a mais num setor em que os empresários e trabalhadores não esperam nem merecem.