Opinião

A pobreza desce, a urgência mantém-se

A redução acentuada do risco de pobreza nos Açores num único ano deve ser interpretada com prudência metodológica. A dimensão limitada da amostra regional aumenta a volatilidade do indicador, amplificando variações marginais de rendimento. Sendo um limiar relativo à mediana nacional e fortemente influenciado por transferências sociais, o indicador é sensível a efeitos conjunturais. A inexistência de melhorias proporcionais noutros indicadores de privação e exclusão social fragiliza a leitura de uma mudança estrutural.

Não obstante, quem vive nas nossas ilhas, facilmente constatará que esta “redução” não é comprovada pela nossa realidade diária. Aliás, se a pobreza tivesse recuado com a intensidade que as tabelas sugerem, veríamos sinais claros disso, como seriam a diminuição dos pedidos de ajuda, ou a redução do número de agregados familiares que continuam a ter de escolher entre pagar a renda, a luz, a água ou garantir a sua alimentação.

Mas sucede-se exatamente o, ou seja, aquilo que sentimos é uma pressão constante do custo de vida e uma vulnerabilidade que se desloca do “pobre clássico” para o trabalhador pobre, com emprego, mas sem folga no fim do mês. E se a estatística nos diz que há “menos pobres”, o nosso quotidiano insiste em dizer que há “mais apertados” e este desfasamento não é, de todo, um detalhe técnico.

Os indicadores têm atrasos, têm margens de erro, dependem de amostras e de como as pessoas respondem e, numa Região arquipelágica como a nossa, há custos e assimetrias que nem sempre cabem nestas contas. Não admira, por isso, que a própria descida tenha sido noticiada como algo “por decifrar”, sem uma causa evidente capaz de explicar um salto de um ano para o outro.

A privação severa, em particular, deveria fazer soar todos os sinais de alarme. Ela não é um número abstrato, mas sim o espelho de inúmeras impossibilidades, como a de aquecer a casa, substituir o que está gasto, suportar uma despesa imprevista, manter rotinas básicas de bem-estar. E é exatamente por isso, que importa realçar que quando referimos que 6,7% da população está nessa situação, referimo-nos a milhares de pessoas que continuam a viver no limite, vulneráveis a qualquer choque, desde uma doença inesperada, uma separação, uma perda de horas no trabalho, ou até mesmo uma atualização da renda mensal.

Paralelamente, há hoje na nossa Região um sinal que nenhum gráfico consegue suavizar, que é o fenómeno dos “sem-abrigo”. Neste particular, o estudo que serviu de base ao I Plano Regional para a Inclusão da Pessoa em Situação de Sem-Abrigo identificou 386 pessoas na Região (235 sem casa e 151 sem teto) e reconhece que, à escala açoriana, o fenómeno tem assumido a tendência de aumento e, sobretudo, de maior complexidade. Entre as causas apontadas surge, sem rodeios, o consumo de substâncias psicoativas e “a particularidade das novas substâncias”.

É aqui que o flagelo das drogas sintéticas deixa de ser conversa de ocasião e passa a ser tema de enorme preocupação. A Europa tem alertado para substâncias mais potentes, misturas imprevisíveis e padrões de consumo que agravam riscos e destroem redes de suporte. Nos Açores, onde a resposta comunitária já está no limite, estas drogas aceleram ruturas, na família, no emprego, na saúde mental, na habitação, entre outras. É por isso fundamental, que em cima da mesa esteja sempre a verdade por inteiro, pois só assim será possível fazer socorrermo-nos destes dados para orientarmos as políticas que melhor lhes servem, para depois sim, olharmos para o terreno e decidirmos qual o caminho a percorrer.

Se os números dizem que melhorámos, mas a vida não o confirma, então a obrigação é corrigir o rumo, antes que as estatísticas nos deem descanso e a rua nos peça contas!