Opinião

Agosto: a conta do desgosto

Já diziam os antigos que agosto é mês do desgosto.

Para os agricultores açorianos, este ano, o ditado dispensava confirmação.

Agosto começou com o preço do leite a descer, a carne entrou também numa trajetória de descida e termina com a notícia de que, a partir de 1 de setembro, o gasóleo agrícola sobe mais 16 cêntimos por litro.

É uma espécie de resumo perfeito do mês.

Desce aquilo que o agricultor recebe.

Sobe aquilo que o agricultor paga.

E aquilo que lhe é devido fica à espera.

À espera dos trâmites. Dos procedimentos. Da burocracia.

Os três milhões de euros destinados a compensar os agricultores pelo aumento dos custos dos combustíveis e fertilizantes estão disponíveis na Região desde o início de agosto.

Estamos no fim do mês.

Os agricultores ainda não os receberam.

Segundo o Secretário Regional da Agricultura, estão a decorrer os procedimentos necessários para atribuir os apoios, mas justificou que “o mês de agosto é sempre um mês de, bom, de mais apatia”.

Está explicado.

Agosto, mês do desgosto para os agricultores. Mês de apatia para quem governa.

O problema é que as contas não entram de férias em agosto.

Nem os animais deixam de comer. Nem os tratores deixam de trabalhar.

A Federação Agrícola colocou a questão de forma mais simples: se a verba era aguardada, porque não foram os procedimentos preparados antecipadamente?

Sobretudo quando, no dia 1 de setembro, o gasóleo agrícola passa de 1,42 para 1,58 euros por litro. Mais 16 cêntimos. De uma vez.

E em plena época de corte do milho, quando tratores e restantes máquinas trabalham horas a fio.

E agosto não pesa apenas nas contas. Pesa também nos animais e nas explorações. Os dias mais quentes deixam marcas: os animais comem menos, ressentem-se e a produção baixa. Nos reservatórios, a água vai descendo e começamos, quase instintivamente, a fazer outra conta, quanto temos e para quanto tempo chega.

Faz parte.

Quem vive da terra conhece os ciclos e aprendeu há muito a trabalhar com aquilo que não controla. Talvez por isso seja dificil aceitar aquilo que podia ser previsto, preparado e evitado. Porque, numa atividade onde já há tanto que não depende de nós, a apatia e a falta de antecipação de quem governa custa demasiado a quem produz.

Há que reconhecer sentido de oportunidade.

Quando o agricultor recebe menos pelo que vende, nada como garantir que paga mais para produzir.

Mas há um indicador que atravessou agosto sem qualquer sinal de desvalorização.

A dureza das palavras.

Essa mantém a cotação.

Aliás, perante tamanha estabilidade, talvez seja atualmente o ativo mais seguro da agricultura regional.

Há dois meses, o Presidente do Governo Regional explicou que tinha reivindicado junto da República, com a famosa “dureza das palavras”, aquilo que entendia ser devido aos agricultores açorianos.

Hoje podemos fazer o balanço.

Dos cerca de 26 milhões de euros reclamados, 23 milhões continuam do outro lado do Atlântico, ainda não atingimos o grau de dureza necessário para os fazer atravessarem o Atlântico.

Três milhões já chegaram aos Açores.

Só ainda não chegaram aos agricultores.

Nos primeiros, continuamos dependentes da eficácia da dureza das palavras junto da República. Nos segundos, da moleza da ação.

O dinheiro está cá.

Agora falta fazê-lo percorrer os últimos quilómetros entre os cofres da Região e as contas dos agricultores. Mas, talvez seja a parte mais difícil da viagem.

Do Governo Regional temos palavras duras. Do Governo da República, promessas.

Mas nem umas nem outras pagam contas.

As rações não se pagam com adjetivos.

O gasóleo não aceita declarações de indignação.

Os bancos não recebem comunicados de imprensa.

E as faturas vencem na mesma, independentemente da intensidade das palavras utilizadas pelo Governo.

Mas este balanço de agosto não pode servir apenas para contabilizar más notícias.

Tem de servir para fazer uma pergunta.

O que estamos a fazer para mudar isto?

Nenhum Governo Regional controla o preço internacional da carne, determina sozinho aquilo que uma indústria paga pelo leite ou controla o preço do barril de petróleo.

Todos sabemos isso.

Os agricultores também.

Mas governar é antecipar, influenciar, mediar, negociar e preparar respostas.

E é precisamente aí que temos de fazer diferente.

Não podemos esperar que o preço caia para descobrir que existe um problema. Nem que os custos subam para começar a pensar na resposta.

Muito menos receber uma verba destinada aos agricultores e só depois iniciar os procedimentos necessários para a fazer chegar a quem dela precisa.

Antecipar também é governar.

E, como se a conta ainda precisasse de mais uma parcela, o Banco Central Europeu mantém aberta a possibilidade de voltar a subir as taxas de juro. Para muitas explorações com investimentos e financiamentos em curso, seria mais um custo a somar aos restantes.

Há momentos em que parece que os astros se alinham todos na mesma direção.

Só o Governo é que continua desalinhado.

E há uma palavra que tem de voltar ao centro da política agrícola.

Rendimento.

No final, por entre milhões investidos, programas aprovados e estratégias anunciadas, a conta é muito simples: Quanto recebe quem produz? Quanto custa produzir? E quanto sobra? É esta conta que deve orientar a política agrícola.

Precisamos de acompanhar os mercados e os custos de produção, preparar respostas antes de as dificuldades se transformarem em crises e criar mais valor para aquilo que produzimos, garantindo que esse valor chega também à produção.

Porque o sucesso da agricultura não se mede apenas pelo dinheiro anunciado ou executado.

Mede-se pela capacidade de manter explorações viáveis e agricultores com rendimento para continuar a produzir e investir.

Quanto aos 23 milhões, não precisamos de uma nova estratégia.

Precisamos que sejam pagos.

Não basta dizer que se reivindicou.

É preciso conseguir.

Porque a influência política não se mede pelo tom de voz.

Mede-se pelos resultados. E em tempo útil.

Há dois meses escrevi que eram duros nas palavras e moles na ação.

Agosto veio confirmar.

Os 23 milhões continuam por chegar.

Os três milhões chegaram à Região, mas ainda não chegaram aos agricultores.

E o problema é que, enquanto o Governo mede a dureza das palavras, os agricultores medem a dureza das contas e pagam o preço da apatia de quem devia antecipar e agir.

Os antigos diziam que agosto era mês do desgosto.

O Governo diz que é o mês da apatia.

Tinham razão.

A conta está feita.