Quero que me visitem, que conversem comigo, que me levem a passear e que façam parte da minha vida. Mas não quero que tenham de abandonar parte da vida deles para compensar aquilo que eu já não consiga fazer sozinho.
Cresci numa família onde os mais velhos cuidavam dos mais novos e onde, mais tarde, os filhos cuidavam dos pais. Tive a sorte de crescer acompanhado pelos meus avós e até pelos meus bisavós, poços de sabedoria e de histórias. Não necessariamente as que aparecem nos livros, mas aquelas que só se aprendem com a vida e com o tempo.
Também assisti ao momento em que esse caminho se inverteu. Aqueles que tinham cuidado passaram a precisar de cuidados. Primeiro, uma ajuda ocasional. Depois, uma presença regular. Finalmente, cuidados que o amor, por maior que fosse, já não conseguia assegurar sozinho.
Cuidar não depende apenas da vontade. Depende do tempo, do dinheiro, da saúde, da proximidade e da existência de respostas que permitam continuar a trabalhar, criar os filhos e acompanhar os pais. É um trabalho exigente, feito muitas vezes por amor, quase sempre invisível e dificilmente conciliável com uma vida profissional.
E esta pressão não vai diminuir.
Entre 2021 e 2024, a população açoriana com 65 ou mais anos aumentou 7,9%, enquanto o grupo com menos de 24 anos diminuiu 2,9%. No final de 2025, existiam nos Açores 138 idosos por cada 100 jovens. Nas Lajes do Pico, na Calheta e no Nordeste, esse número ultrapassava os 200.
Ainda somos uma das regiões mais jovens do país, mas estamos a envelhecer depressa. No cenário central do Instituto Nacional de Estatística, os Açores poderão chegar ao final do século com 405 idosos por cada 100 jovens. É um cenário, não uma certeza, mas mostra a direção em que caminhamos.
Os idosos das próximas décadas já vivem entre nós.
E, em breve, serei eu.
Em setembro de 2025, os dados oficiais apontavam para 540 idosos à espera de admissão numa estrutura residencial para pessoas idosas. A Região dispunha então de 34 estruturas e de 1 424 camas protocoladas. Desde essa data foram acrescentados novos lugares, incluindo 31 na Graciosa. É uma evolução positiva, mas ainda não existe um retrato público atualizado que permita concluir que a pressão foi resolvida.
Para quem precisa de cuidados permanentes, são necessárias mais vagas, mais profissionais e mensalidades compatíveis com as pensões. Mas construir lares não pode ser a única política para o envelhecimento.
Muitas pessoas podem continuar nas suas casas se tiverem acompanhamento adequado. Isso exige apoio domiciliário com horários mais alargados, centros de dia adaptados à vida das famílias, descanso para os cuidadores informais e respostas de emergência quando estes chegam ao limite.
Permanecer em casa deve significar conservar autonomia, não ficar entregue à solidão.
O programa “Novos Idosos” aponta nessa direção. Em março de 2026, apoiava 465 pessoas, enquanto outras 92 aguardavam integração no programa. É uma resposta positiva, mas ainda insuficiente perante uma procura que continuará a crescer.
Também a tecnologia pode ajudar. A teleassistência, os sensores de queda e os alertas de medicação podem reforçar a segurança e tranquilizar as famílias. Mas deve apoiar o cuidado humano, não substituí-lo. Um sensor pode detetar uma queda. Não levanta quem caiu.
Há uma expressão que aconselha a tratar bem os filhos, porque serão eles a escolher o lar para onde iremos. Tem graça, mas talvez coloque a responsabilidade no lugar errado.
Quero tratar bem os meus filhos porque são meus filhos. Não para garantir que um dia abandonam o emprego, reorganizam a família ou encontram a vaga que o sistema não criou.
Quando esse dia chegar, quero que possam acompanhar-me.
Sem terem de deixar de ser meus filhos para se tornarem o meu sistema de cuidados.