Opinião

Retomar a via marítima faz parte da solução

Estamos já na parte final do verão e é tempo de fazer um balanço dos transportes, mesmo sem os números finais apurados. E esse balanço, pelo que se ouve na rua, só pode ser negativo para a ilha Graciosa.

O problema, para além da falta de lugares e da instabilidade da operação aérea, é a confirmação de que a Graciosa continua a ser tratada como uma ilha secundária nas decisões de mobilidade, dependente de boas intenções que falham quando chega a hora de responder às necessidades reais das pessoas, das famílias, das empresas e de quem nos visita.

Isto não é apenas uma perceção. É a confirmação de um problema que se arrasta, sem resposta séria e sem respeito por quem depende destas ligações.

Voos cancelados com frequência, grupos a desistir, listas de espera que nunca se confirmam, lugares insuficientes e as habituais avarias a agravar uma operação já de si frágil.

Um autêntico desastre, com consequências diretas para a economia local, para o turismo, para a vida das famílias e para a confiança de quem quer vir à Graciosa. Estamos a pôr em causa a coesão territorial e a coesão social, ambas tão importantes e ambas sucessivamente desvalorizadas.

Da promessa de aumento da oferta, embora modesta, resultou precisamente o contrário, ou seja, menos lugares e maior irregularidade operacional.

A mobilidade aérea, que o Governo insiste em apresentar como solução para todos os problemas, não funciona como deveria. E é precisamente isso que torna ainda mais incompreensível a decisão de abdicar do transporte marítimo de passageiros como complemento essencial à deslocação de pessoas e bens, sobretudo numa altura decisiva para a vida social e económica dos Açores, que é o verão. Quando a via aérea falha, não ter alternativa é uma irresponsabilidade.

É por isso que chegou o momento de afastar preconceitos bacocos e retomar a mobilidade por via marítima. É preciso reabrir esse debate, porque é isso que muitos açorianos querem.

Não venham com a desculpa do custo, argumento sempre chamado quando se quer justificar o injustificável.

Oito milhões de euros para unir todas as ilhas dos Açores pelo mar é apenas uma ínfima parte do valor do orçamento regional que fica por executar nessas mesmas ilhas. Por isso, o que falta é vontade política para tratar a Graciosa e os Açores com a dignidade que merecem.