Opinião

Quando falhamos com os nossos alunos

Nos últimos anos ganhou força ideia de que tudo o que é digital é, automaticamente, melhor. Não é!

A tecnologia é uma das maiores oportunidades que a escola conheceu nas últimas décadas, que pode e deve servir para aproximar alunos do conhecimento, diversificar metodologias, simplificar processos administrativos e preparar melhor as novas gerações para um mundo em permanente transformação. Negar isso seria negar a própria evolução da sociedade.

Mas existe uma diferença fundamental entre utilizar a tecnologia para melhorar a educação e utilizar a tecnologia para criar a ilusão de que estamos a modernizar a educação.

A recente crise dos exames nacionais tornou essa diferença evidente.

Durante semanas falou-se de plataformas que falharam, classificações adiadas, milhares de pedidos de reapreciação, alunos sem conhecerem as suas notas, professores obrigados a responder a problemas que não criaram e até da possibilidade de adiar o início do ano letivo. Tudo isto, per si, é demasiado grave.

Contudo, talvez o mais preocupante seja aquilo que este episódio revela sobre a forma como, demasiadas vezes, são tomadas decisões públicas. E nesse particular, teimamos em confundir inovação com velocidade.

Queremos implementar primeiro e avaliar depois, anunciar antes de testar e apresentar soluções antes de mesmo de termos a garantia de que elas funcionam.

Ora, é precisamente o contrário que deve acontecer.

Uma boa política pública começa por definir objetivos, identificar riscos, testar soluções, avaliar resultados e só depois generalizar a sua aplicação. É assim na saúde. É assim na economia, e deveria ser assim, por maioria de razão, na educação, onde cada decisão influencia diretamente o futuro de milhares de crianças e jovens.

Também por isso defendo que a introdução de novas ferramentas tecnológicas na educação deve ser sempre acompanhada de uma avaliação independente e rigorosa. A inovação é importante, mas só faz sentido quando conseguimos demonstrar que melhora as aprendizagens, promove o bem-estar dos alunos e acrescenta qualidade ao processo educativo. Sem essa evidência, o risco de decidir primeiro e avaliar depois torna-se demasiado elevado.

Acredito e defendo que a evolução tecnológica, a interatividade, e até os Manuais Digitais, podem constituir instrumentos importantes para modernizar a escola. O que questiono é uma forma de decidir que coloca o oportunismo do investimento, à frente da avaliação. Se o objetivo de um estudo é precisamente aferir se uma determinada política pública produz os resultados esperados, é difícil compreender que se avancem investimentos de milhões de euros antes de serem conhecidas as suas conclusões. Avaliar antes de decidir não atrasa a inovação. Pelo contrário, torna-a mais sólida, mais credível e, sobretudo, mais responsável.

Os acontecimentos dos últimos dias vieram, infelizmente, reforçar esta minha convicção.

A tecnologia é indispensável, mas não substitui o planeamento, não substitui a competência, e mais importante ainda, jamais substituirá as pessoas.

Nenhuma plataforma resolve a falta de professores. Nenhum software substitui assistentes operacionais em número suficiente. Nenhuma aplicação compensa escolas degradadas ou docentes que continuam sem incentivos eficazes para se fixarem na Região. Continuamos a discutir problemas estruturais que condicionam diariamente a qualidade do ensino e que exigem muito mais do que respostas tecnológicas.

Talvez este seja o maior ensinamento que a crise dos exames nacionais nos deixa.

O problema nunca foi a tecnologia, foi antes a crença utópica de que a tecnologia, por si só, resolveria problemas que eram, desde o início, de organização, de planeamento e de governação.

A educação em Portugal e no mundo precisa de continuar a inovar. Precisa de investir em ferramentas digitais, em inteligência artificial, em novos recursos pedagógicos e em formas diferentes de ensinar.

Mas precisa, antes de tudo, de recuperar uma ideia simples que nunca deveria ter sido esquecida: a inovação só é verdadeira quando melhora a vida das pessoas.

No final, a questão nunca foi a tecnologia, nunca foram os manuais digitais, nem foram os exames nacionais. A verdadeira questão sempre foi outra: que escola queremos construir para os nossos alunos? Uma escola onde primeiro se experimenta e depois se corrige, ou uma escola onde primeiro se planeia, se avalia e só depois se decide? Porque os nossos alunos merecem inovação, mas merecem, acima de tudo, confiança.