Opinião

Continuidade territorial

Há direitos que só percebemos bem quando compramos uma passagem de avião.

Para quem vive no continente, viajar pode ser uma escolha. Para quem vive nos Açores, muitas vezes é uma necessidade: uma consulta, um exame, um filho a estudar fora, uma reunião de trabalho, uma urgência familiar… E é aqui que a palavra “mobilidade” deixa de ser linguagem de despacho e passa a ser vida concreta.

A nova Lei da Continuidade Territorial volta a colocar este tema no centro da conversa pública. E ainda bem. Porque durante algum tempo podemos discutir a insularidade como uma paisagem bonita para fotografar, mas não podemos esquecer que ela também pesa no bolso, no acesso à saúde, à educação, à economia e até à liberdade de cada um decidir o seu caminho.

O subsídio social de mobilidade não é um favor do Estado aos açorianos e madeirenses. É uma tentativa, sempre imperfeita, de corrigir uma desigualdade estrutural. Viver no meio do Atlântico não pode significar pagar mais para ter os mesmos direitos. Nem pode significar ficar dependente de burocracias que tratam a distância como se fosse culpa de quem nasceu ou escolheu viver numa ilha.

Mas convém não cair na celebração fácil. Uma lei pode ser justa no papel e falhar na aplicação. Se os reembolsos atrasarem, se as plataformas não funcionarem, se as companhias aumentarem preços à boleia do sistema, quem perde é sempre o mesmo: o passageiro, a família, o estudante, o doente, o trabalhador.

A continuidade territorial mede-se menos nos discursos e mais quando alguém consegue viajar sem ansiedade financeira e burocrática.

Porque a autonomia também é isto: não pedir privilégios, mas exigir que a distância não se transforme numa sentença. E um país que obriga alguns cidadãos a mais burocracia para chegar ao mesmo lugar ainda não aprendeu totalmente o que significa continuidade territorial.

 

(Crónica escrita para Rádio)