Opinião

Ainda sabemos ser livres?

Passaram 52 anos desde o 25 de Abril de 1974. Meio século que, à distância, pode parecer suficiente para transformar a liberdade num hábito, quase numa evidência. Mas não é. Nunca foi. E talvez hoje, mais do que nunca, importe dizê-lo sem rodeios que a liberdade não é um dado adquirido, é uma construção permanente, exigente, e por vezes incómoda.

Custou muito conquistá-la. Custou silêncio, medo, prisão e exílio. Custou gerações inteiras que viveram privadas do essencial: o direito de pensar, de discordar, de escolher. E, no entanto, volvidos todos estes anos, começamos a assistir a algo inquietante que, não sendo uma perda abrupta da liberdade, nos vai chegando como um desgaste subtil desta, banalizada ao serviço de discursos e interesses demagogos e populistas.

Vivemos numa democracia, o melhor sistema que conhecemos, apesar de todas as suas imperfeições. Uma democracia que só é verdadeiramente livre se permitir o confronto de ideias, o debate plural, o direito à divergência. É aqui que entra o papel, tantas vezes incompreendido, da oposição. Um papel exigente, frequentemente ingrato, mas absolutamente essencial. Porque uma democracia sem oposição não é uma democracia plena, é um monólogo.

Hoje, porém, assistimos a uma crescente desvalorização desse papel. Nas redes sociais, no espaço público, instala se a ideia de que não vale a pena lutar, de que “já houve quem falhasse antes”. Como se o passado anulasse o presente. Como se o erro justificasse a desistência. Este é um dos maiores perigos do nosso tempo: o cinismo que paralisa, que afasta, que empurra os mais jovens para a indiferença.

E é precisamente aos jovens que temos de falar, com verdade e sem paternalismos. Mostrar-lhes que a democracia não é perfeita, mas é nossa. Que exige participação, coragem e, acima de tudo, liberdade de pensamento. Sem dogmas. Sem complexos. Sem medo.

Mas há um outro desafio que não podemos ignorar. Nunca foi tão fácil comunicar, opinar, partilhar. Nunca a liberdade de expressão foi tão ampla. E, paradoxalmente, nunca estivemos tão expostos à desinformação, à manipulação, às chamadas “verdades alternativas”. A liberdade absoluta, sem responsabilidade, pode transformar-se numa fragilidade do próprio sistema que a sustenta.

Coloca-se então uma pergunta incómoda: poderá a liberdade morrer às mãos da própria liberdade? Talvez não seja a liberdade em si o problema, mas a forma como a usamos, ou deixamos de cuidar dela.

A resposta não está em limitar, mas em educar. Em formar cidadãos críticos, informados, capazes de distinguir o ruído da verdade. Capazes de participar sem medo e de discordar sem destruir.

Porque, no fim, é disso que se trata, isto é, manter viva a liberdade. Não como memória, mas como prática diária. Não como herança garantida, mas como responsabilidade coletiva.

E isso, como há 52 anos, continua a depender de todos nós.