Opinião

Dependência não é estratégia

Durante muito tempo celebrámos números.

Falámos de crescimento, de recordes, de procura. Os Açores afirmaram-se como destino turístico e isso trouxe confiança, investimento e visibilidade. Mas, não foi preciso passar muito tempo para percebermos que a consolidação não foi feita.

A mobilidade nos Açores continua demasiado dependente de decisões que não controlamos. De companhias aéreas com interesses próprios, legítimos, mas que não são os da Região. E quando o modelo assenta nessa dependência, a fragilidade não é um acidente. É uma consequência e este não é um problema novo, é apenas mais visível agora com a saída da Raynair.

E torna-se ainda mais preocupante quando percebemos que até aquilo que funcionava como rede de segurança começa a ser colocado em causa quando se avança para a privatização das companhias públicas que, em momentos críticos, garantem ligações, asseguram transporte e podem evitar ruturas.

Ao mesmo tempo, a forma como o Estado olha para a continuidade territorial continua a revelar limitações evidentes. O subsídio social de mobilidade é bem exemplo disso. Quem vive nos Açores sabe que a mobilidade não se resolve apenas com passagens mais baratas. Resolve-se com previsibilidade, com acessibilidade real e com capacidade de resposta.

E é aqui que a questão deixa de ser operacional e passa a ser política. Não estamos apenas a falar de voos. Estamos a falar de pessoas, de bens, de economia. O que está em falta é claro: uma estratégia séria para a mobilidade dos Açores. Uma estratégia que pense o transporte de pessoas, o transporte de carga e no papel dessas ligações no desenvolvimento da Região.

Porque depender não é uma estratégia. É um risco. E os Açores não podem continuar a viver assim.

 

(Crónica escrita para Rádio)