Opinião

Tolerância...

Habituámo-nos a andar de máscara... mas não temos Carnaval. Mesmo na época própria. O período de desregramento, irreverência e afrouxamento das peias e constrangimentos sociais, esse respiradouro tão necessário a uma comunidade sã... está suspenso, por maus mas inelutáveis motivos.
Nos Açores, o Portugal de quinhentos que ainda sobrevive, faz com que tenhamos um forte apego às manifestações de Entrudo, com formas variadas, consoante o local e a ilha, de desregrar o quotidiano. Na Terceira, sobretudo, homenageia-se Mestre Gil, através das danças e bailinhos de Carnaval, chorando tragédias de Inês ou satirizando impiedosamente as agruras do quotidiano e os senhores de cima. A honra e a dignidade não ficam suspensas, mas adquirem uma inusitada generosidade, que remédio...
Talvez por isso mesmo, lembro-me das aflições que passei, quando, há um bom par de anos, me marcaram a continuação de uma audiência de julgamento para a segunda-feira de Carnaval, com as testemunhas a berrarem no corredor do Tribunal que não vinham, não senhor! Era juiz de fora...
E lembramo-nos todos que um dos grandes motivos que fez Cavaco cair em desgraça foi quando se embirrou que a terça-feira de Carnaval não era legalmente feriado, e pôs o pessoal a trabalhar. Questão deveras muito interessante, pois há muita gente que não sabe e não acredita que tal dia não seja feriado. Convicção acrescentada por muito do chamado sector privado, por tolerância patronal ou ditame de convenção coletiva, também conceder tal dispensa aos seus trabalhadores.
Daí que só mesmo o bicho, a nossa boa consciência cívica e a exceção do estado de emergência nos faça calar por este ano não haver tolerância administrativa que nos dispense de trabucar na terça das folias. Com a ironia de, desta vez, muito do sector privado ter assegurado convencionalmente e ir gozar esse feriado costumeiro!