Opinião

O que as listas não dizem

Quando alguém deixa de receber um apoio social, podemos estar perante duas histórias muito diferentes. Numa, essa pessoa encontrou mais rendimento e ganhou autonomia. Noutra, perdeu o apoio, mas não perdeu as dificuldades.

Esta semana soubemos que, nos Açores, o Rendimento Social de Inserção chegou, em setembro, a 4.626 pessoas. Menos dezasseis por cento do que há um ano.

Seria injusto dizer que não é uma descida importante. Mas, seria igualmente precipitado anunciar que a pobreza está a desaparecer nos Açores.

Os dados mais recentes sobre o risco de pobreza ou exclusão social mostram que mais de uma em cada cinco pessoas na Região continua nessa situação. Pode não ser o mesmo peso e a mesma medida, mas obriga-nos a olhar para além de um único número.

Quando se fala de pobreza, é importante olhar para além dos apoios atribuídos. Importa perceber as condições concretas em que as pessoas vivem, a segurança que sentem perante o futuro e sobretudo as oportunidades que têm para construir uma vida melhor.

Sair de uma lista não é necessariamente sair de uma vida difícil. Há rendimentos que podem chegar para perder o direito a um apoio e não serem suficientes para fazer face à renda, à alimentação ou às despesas de uma família nos dias que correm. Ou seja, há dificuldades que desaparecem das estatísticas sem desaparecerem das casas.

Talvez o nosso debate público precise de mudar a perspetiva: em vez de andarem a celebrar quantas pessoas saíram de uma lista, deviam querer saber quantas conseguiram efetivamente quebrar o ciclo de pobreza.

As estatísticas serão sempre indispensáveis, mas não são um retrato concreto de uma vida.

Caro ouvinte, a verdadeira boa notícia não será haver menos beneficiários. Será haver menos pessoas a precisar de auxílio para viver com dignidade.

 

(Crónica escrita para Rádio)