Opinião

Inaugure agora, pague depois

O PRR permitiu aos Açores realizar investimentos que, sem fundos europeus, dificilmente caberiam nos nossos orçamentos. E ainda bem. O problema é que a conta não acaba no dia em que se corta a fita.

Veja-se o Azores Ocean. Num arquipélago onde o mar nasce connosco e nos molda a forma de ser, não o conhecer e estudar seria negar a nossa própria natureza. Por isso, considero o navio de investigação uma aposta necessária. Só que cada dia de operação custa, segundo o Governo Regional, cerca de 18 mil euros. E já se procuram parceiros para ajudar a pagar as missões.

Pelo meio, surgiu a polémica dos seguros. Houve um contrato temporário em julho e, às portas da estreia, dois concursos urgentes para assegurar a cobertura de cascos e máquinas. A primeira saída foi adiada devido ao mau tempo, segundo a RTP. Quanto aos seguros, dois concursos urgentes separados por três dias deixam uma pergunta: será que o único imprevisto foi o estado do mar? E será que planeámos a operação com o mesmo cuidado com que celebrámos a aquisição?

Quase em simultâneo, outro exemplo, bem mais próximo das famílias. Um mês e meio depois do início das aulas, dezenas de alunos açorianos continuam com tablets, mas sem acesso aos manuais digitais. O projeto começou com financiamento do PRR. Agora, cabe à Região comprar as licenças, parte de um procedimento com preço base de quase cinco milhões de euros. Foram adquiridas menos licenças do que as necessárias. Segundo a tutela, existiu um erro de cálculo e previsão. Não deixa de ser curioso que conseguimos prever a modernização da escola, mas não o número de alunos.

Temos o ecrã. Falta-nos o livro.

Os dois casos são diferentes. Num, discutimos despesas de operação e seguros; no outro, os custos recorrentes das licenças e uma previsão falhada. Mas ambos recordam que investir não é apenas comprar. É garantir que o investimento funciona.

Na nossa vida fazemos essas contas todos os dias. Eu, por exemplo, adoro comer fora. Se fosse apenas pelo gosto, almoçava todos os dias à beira-mar e jantava num bom restaurante. Podia fazê-lo? Podia. Mas provavelmente passaria grande parte do resto do mês a pão e água. É que uma coisa é ter dinheiro para pagar a conta de hoje, outra é garantir que conseguimos pagar as de amanhã.

Com dinheiro público, a conta é ainda mais exigente e, ao contrário de mim, uma escola, um hospital ou um navio de investigação não podem simplesmente passar o resto do mês a pão e água. Temos sempre de contar que as despesas não desaparecem quando acaba o financiamento europeu.

Não defendo que se invista menos por medo do custo de manter o que se constrói. Defendo que se planeie melhor. Quanto custa operar? Quem paga? Durante quantos anos? E o que ganhamos com isso?

O sucesso do PRR não se medirá apenas pelos milhões executados, pelas placas descerradas ou pelas fotografias das inaugurações. Medir-se-á daqui a alguns anos, quando soubermos o que continua a funcionar e a servir as pessoas.

Porque isso de passar grande parte do mês à míngua é difícil de aguentar.