Esta semana integrei uma missão do Parlamento Europeu ao Japão.
Uma visita que nos levou a reunir com responsáveis políticos e a conhecer instalações militares e industriais ligadas ao setor da defesa. Num país cuja Constituição consagra a renúncia à guerra, a dimensão do investimento militar em curso é reveladora das transformações na ordem internacional.
Perante a crescente pressão da China sobre Taiwan, as ameaças da Coreia do Norte e a aproximação entre Pequim e Moscovo, o Japão está a reforçar as suas capacidades e a aprofundar a cooperação com parceiros internacionais.
É neste contexto que se abrem novas oportunidades para a UE. A parceria de segurança e defesa de 2024 permite aprofundar a cooperação industrial, tecnológica e militar com um país que partilha connosco valores democráticos e interesses estratégicos. Para Portugal, com a sua posição atlântica e competências industriais e tecnológicas, esta aproximação também deve merecer atenção.
A principal conclusão que retiro desta visita é simples: defender a paz exige mais do que proclamar boas intenções. Exige antecipação, investimento, cooperação e decisões responsáveis. Uma lição que não se esgota na política internacional.
A Assembleia da República aprovou, na generalidade, o Orçamento do Estado para 2027. A sua viabilização ficou a dever-se, uma vez mais, à abstenção do PS, numa decisão politicamente responsável e inteiramente coerente com o interesse nacional.
Importa ser claro. O PS não votou a favor do Orçamento, não subscreve as opções do Governo e não abdica de as combater. Este é aliás um mau orçamento, insuficiente para responder às dificuldades que as famílias portuguesas enfrentam. Mas juntar uma crise política à crise do custo de vida e da habitação seria uma irresponsabilidade de consequências imprevisíveis.
A política não pode transformar cada divergência numa ameaça à estabilidade do país. Há uma diferença fundamental entre exercer a responsabilidade de fiscalizar e corrigir um Governo e fazer da instabilidade um instrumento de afirmação partidária.
Há, contudo, uma matéria que exige especial urgência: a habitação.
O PS defende que o Governo abandone a revisão da lei das rendas, avance com uma garantia pública que proteja os inquilinos e dê segurança aos proprietários, estabeleça uma moratória para os contratos de arrendamento que terminam até ao final do ano e mobilize imóveis públicos para habitação acessível.
Não é aceitável que, perante uma crise desta dimensão, o Governo proponha facilitar despejos, eliminar limites ao valor das cauções e permitir a exigência de mais rendas antecipadas. Menos aceitável ainda é que o tenha feito com a viabilização do Chega.
O mesmo Chega que se apresenta agora como defensor dos portugueses aflitos com o preço das casas, ajudou a fazer avançar uma proposta que fragiliza a posição dos inquilinos. Uma contradição que nenhuma encenação parlamentar pode apagar.
As manifestações pelo direito à habitação, em Lisboa, no Porto, em Ponta Delgada e noutras cidades, continuam a trazer a público a angústia de muitos portugueses.
No entanto, perante estas pessoas, alguns responsáveis políticos da direita e extrema-direita descobriram uma resposta verdadeiramente extraordinária: mandar os manifestantes “trabalhar” ou “tomar banho”. Um deputado do Chega chegou mesmo a exibir fotografias de manifestantes para concluir que não precisavam de habitação, mas de um champô, de um banho e exortar um “Carrega, PSP!”.
Nos Açores, o espetáculo encontrou um imitador. O líder regional do Chega resolveu importar a retórica de Javier Milei e dedicar-se à denúncia da “canhota”, acompanhada de vídeos, provocações e apelos – sem inspiração ou originalidade - para que os manifestantes fossem trabalhar.
Aqui, onde o preço da habitação também tem aumentado significativamente, esta conversa é particularmente insultuosa.
Substituir os problemas por caricaturas, os argumentos por provocações e as soluções por insultos é um exercício que pode render nas redes sociais, mas não acrescenta uma única casa ao mercado.
Deputado do PS no Parlamento Europeu