Há 11 meses consecutivos que as dormidas turísticas nos Açores diminuem e, em agosto, a quebra foi de 2,6%. O Governo Regional contrapõe com o aumento dos proveitos da hotelaria, mas esse indicador, isoladamente, pouco diz sobre o setor. Os proveitos são nominais, refletem preços mais altos e, com uma inflação de 4% no setor dos serviços e custos fixos substancialmente superiores, devem ser olhados com mais tempero.
Há mais diferenças que os números agregados escondem. Em agosto, a hotelaria aumentou as dormidas em 0,7%, mas o alojamento local caiu 4,8% e o turismo rural 9,8%; nos primeiros oito meses, o Alojamento Local recuou 6,1%. Os números têm de ser lidos em conjunto, não apenas na parte que melhor serve a narrativa.
Na verdade, o turismo não se resume à hotelaria tradicional, nem se mede apenas pelas dormidas ou pelo RevPAR. À sua volta existe uma cadeia dependente da procura turística incluindo restauração, rent-a-car, animação turística, comércio e serviços. Quando o turismo cresce, fala-se do seu efeito multiplicador, mas esse efeito também funciona ao contrário e, quando a procura recua, toda esta economia perde clientes, receita e margem para investir.
Também não colhe a explicação da conjuntura internacional. Se fosse esse o fator decisivo, seria difícil explicar que Portugal tenha crescido 1,7% nas dormidas em agosto e a Madeira 3,3%, enquanto os Açores recuaram. Num contexto de insegurança em vários destinos, os Açores têm na segurança uma vantagem competitiva que poderia ser transformada em procura com estratégia.
O problema da conectividade é, portanto, incontornável. Menos lugares e menor concorrência significam menos opções e preços mais elevados para quem visita e para quem cá vive. O Fundo de Desenvolvimento de Rotas Aéreas, criado em junho por iniciativa do PS/Açores, continua dependente da Comissão Europeia. O Governo lança campanhas em desespero e diz que captar rotas exige tempo queixando-se que não há slots no aeroporto de Lisboa, o que só comprova que deveria ter começado a trabalhar mais cedo.
O turismo precisa de promoção eficaz, acessibilidades estáveis e decisões atempadas. Não é uma questão de alarmismo, mas de antecipar realidades previsíveis e preparar respostas antes de os problemas se instalarem. É, portanto, uma questão de competência política, ou de falta dela. Infelizmente, após o debate na Assembleia, resta dizer: “Tudo na mesma como a lesma”!