Nasci e passei os meus primeiros anos na Rua Coronel Miranda, paredes-meias com o Largo 2 de Março. Foi por aquelas ruas que comecei a descobrir Ponta Delgada, nas idas e vindas à casa dos meus outros avós, para os lados do mercado. Lembro-me de me sentar com o meu avô no Jardim Sena Freitas, a observar os velhotes que jogavam às cartas. Matavam o tempo entre conversas, uma sueca e uma ou outra batota.
Continuo a deambular pela cidade.
Gosto das montras, dos cheiros, de observar quem passa.
Tal como eu, a cidade envelheceu. Mudaram as lojas, os serviços, os rostos e os hábitos. É natural. Nenhuma cidade pode, nem deve, ficar prisioneira das memórias de quem nela cresceu. Mas Ponta Delgada foi deixando de ser vivida da mesma maneira.
A tecnologia encurtou distâncias. Mudámos onde trabalhamos e compramos, saímos menos para encontrar alguém por acaso. A rua deixou de ser um lugar onde se estava e passou a ser, sobretudo, um lugar por onde se passa.
E uma cidade não vive apenas de pessoas que passam.
Podemos recuperar fachadas, embelezar praças, promover eventos e atrair visitantes. Tudo isso importa. O turismo trouxe oportunidades e movimento.
Mas há uma diferença entre uma cidade animada e uma cidade habitada. A primeira pode encher-se num fim de semana. A segunda tem vida todos os dias. Essa diferença começa, em boa parte, à porta de casa. Sem moradores, o comércio perde clientes, os cafés e as mercearias perdem vizinhos e as ruas perdem a vida que não cabe num dia de festa. Não se trata de regressar ao passado, mas de voltar a ter gente a morar no centro. É aqui que a habitação deixa de ser apenas uma questão social para ser também uma questão de futuro urbano.
Em Lisboa e no Porto, as manifestações pelo direito à habitação voltaram a levar pessoas às ruas. Podemos discutir as formas de protesto, mas não ignorar as dificuldades que lhes deram origem.
Em Ponta Delgada houve cerca de cinco mil candidaturas a 102 habitações municipais do PRR. Não são cinco mil famílias distintas; era possível concorrer a vários empreendimentos. Mesmo assim, o número merece atenção. Na anteproposta do Plano Regional para 2027, as verbas identificadas para habitação em São Miguel somam cerca de 18,2 milhões de euros.
Mas o levantamento não esclarece como se distribuem pelos concelhos, quantas casas ficarão disponíveis nem em que prazos.
Não discuto a necessidade de construir nas freguesias mais distantes. Pelo contrário. O concelho não termina nas ruas do centro. Mas revitalizar a cidade exige uma estratégia específica para recuperar a residência permanente no seu coração.
Documentos e estratégias habitacionais já existem. Importa agora avaliar o que foi feito e o que falta concretizar. É preciso aumentar a oferta pública e incentivar a iniciativa privada a construir ou recuperar casas. Mas quem beneficia de apoios públicos deve assumir uma contrapartida: colocar essas casas no mercado a preços acessíveis. Porque a crise já não atinge apenas os mais vulneráveis. Também a classe média, muitas vezes sem acesso a apoios, está a ficar sem alternativas.
Não é oposição ao turismo, ao alojamento local ou ao direito de propriedade.
É uma escolha sobre o futuro da cidade, onde tudo pode coabitar, desde que também haja lugar para quem cá trabalha, cria os filhos ou envelhece.
Hoje, quando passo pelo Jardim Sena Freitas, lembro-me do meu avô e daqueles homens à volta de uma partida de sueca.
Talvez tivessem muito com que se preocupar. Mas tinham tempo para estar ali, numa cidade onde ainda se encontravam vizinhos.
Não precisamos de recuperar a cidade da minha infância. Precisamos de uma cidade onde as próximas gerações possam viver e criar as suas próprias memórias.