Opinião

Mas vai dando

Existe uma expressão que usamos muitas vezes, quase como um desabafo, o “vai dando”.

A casa é pequena, mas vai dando. As despesas aumentam, o salário é curto, mas com alguns ajustes vai dando. Umas contas aqui, o cartão de crédito ali, os óculos esperam, corta-se num livro ou num jantar, mais um dia passa e… vai dando.

Há pouco tempo contei a história da Joana, do Pedro e da pequena Margarida, uma família açoriana fictícia, mas com um pouco de muitas famílias por este mundo fora, que serviu para retratar aquilo a que chamei a “Classe do dá”.

O que acontece quando a “Classe do dá” deixar de aguentar? Quando já não for possível continuar a ajustar despesas, adiar necessidades e alimentar expectativas? Quando o desgaste deixar de ser apenas financeiro e passar também a ser psicológico?

Nos últimos dias, no Porto, milhares de pessoas saíram à rua para protestar contra a dificuldade de acesso à habitação e o aumento do custo de vida.

O protesto acabou por ficar marcado pela intervenção policial, pelas tendas retiradas e por uma discussão sobre a legitimidade das manifestações, da ocupação do espaço público e os limites da atuação das autoridades.

É uma discussão necessária. Mas seria um erro ficarmos apenas pelas tendas e pelos bastões. Seria aceitar o terreno em que alguma direita prefere travar este debate, o da ordem pública, em vez das condições de vida.

Porque as razões que levaram aquelas pessoas à rua continuam por resolver.

Durante muito tempo habituámo-nos a associar as dificuldades económicas ao desemprego, à falta de qualificações ou à exclusão social.

Hoje, o problema é bastante mais abrangente.

Ter emprego já não significa necessariamente conseguir pagar uma casa. Ter formação superior não garante independência financeira. E constituir família transformou-se, para muitos, num exercício de gestão de riscos.

E nos Açores não é diferente. Todos nós conhecemos esta realidade, todos os dias vivemos paredes-meias com ela e alguns de nós até a podemos sentir na pele.

Os custos da habitação, da alimentação, da energia e das deslocações consomem uma parte significativa dos rendimentos familiares.

Entretanto, discutimos planos, anunciamos investimentos, apresentamos projeções económicas, falamos de demografia e prometemos soluções. Faz parte do processo.

Mas as famílias não vivem de anúncios e certamente as projeções e os planos não pagam as contas. Não é apenas uma questão de economia. É a gestão das expectativas, a confiança no futuro e a credibilidade da relação entre os cidadãos e as instituições.

E talvez estejamos a subestimar as consequências para uma geração que vai adiando os seus planos de vida e sente permanentemente o caminho cada vez mais difícil, com receio constante do próximo imprevisto.

Uma sociedade pode pedir esforço, responsabilidade e até sacrifícios. Mas tem também de ser capaz de oferecer uma perspetiva razoável de que esse esforço terá algum retorno.

Quando isso deixa de acontecer, quando se abrem brechas no contrato social entre gerações, a resignação começa a transformar-se em frustração.

E a frustração, mais cedo ou mais tarde, encontra forma de se manifestar.

O problema é que há cada vez mais pessoas para quem a pergunta já não é como conseguirão aguentar mais um mês.

É o que fazer quando já não dá.