Há decisões políticas que vão muito além da construção de uma infraestrutura. São decisões que refletem a forma como uma sociedade valoriza a sua história, preserva a sua identidade e honra aqueles que contribuíram para o seu desenvolvimento. A recusa do Governo Regional dos Açores em assumir a construção do Museu da Construção Naval de Santo Amaro é uma dessas decisões.
A Freguesia de Santo Amaro, do concelho de São Roque do Pico, não é apenas uma localidade do nosso arquipélago. É um dos mais importantes símbolos da tradição marítima açoriana. Durante décadas, os seus mestres construtores navais transformaram madeira em embarcações que serviram a pesca, garantiram ligações entre comunidades e ajudaram a sustentar a economia de muitas famílias açorianas. Da sua arte nasceram verdadeiras obras-primas da engenharia tradicional, construídas com conhecimento acumulado ao longo de gerações.
Porém, o legado destes homens não ficou confinado aos Açores. Muitos construtores navais picarotos levaram o seu saber para os Estados Unidos da América, acompanhando os fluxos migratórios açorianos e contribuindo para o desenvolvimento de comunidades ligadas ao mar. A sua competência e experiência foram reconhecidas além-fronteiras, constituindo um motivo de orgulho para a diáspora açoriana e um testemunho da capacidade dos açorianos de afirmarem o seu valor onde quer que se estabeleçam.
É precisamente por isso que o Museu da Construção Naval de Santo Amaro não pode ser visto como um projeto local ou de interesse restrito à ilha do Pico. Pelo contrário, trata-se de um projeto de dimensão regional, que honra a história da construção naval em todas as ilhas dos Açores e presta homenagem aos homens que deram forma a um dos mais relevantes patrimónios marítimos do arquipélago.
A concretização deste museu permitiria preservar ferramentas, documentos, técnicas, embarcações e testemunhos de uma atividade que marcou profundamente a identidade açoriana. Permitiria ainda criar um espaço de investigação, interpretação e divulgação cultural, capaz de atrair visitantes, fortalecer a oferta turística da ilha do Pico e contribuir para a dinamização económica do concelho.
Mas, acima de tudo, seria um ato de justiça histórica. Justiça para com os mestres carpinteiros navais que dedicaram a sua vida a uma arte exigente e especializada. Justiça para com as comunidades marítimas que cresceram em torno desta atividade. Justiça para com a diáspora açoriana, que continua a reconhecer nestes homens um exemplo de trabalho, talento e perseverança.
Deixar este projeto naufragar seria desperdiçar uma oportunidade única de perpetuar um legado que pertence a todos. E há patrimónios que são demasiado valiosos para serem deixados ao abandono. A construção naval açoriana é, sem dúvida, um deles.