Não me recordo da última vez que tive de esperar por um transporte público.
Talvez tenha sido quando estudei no continente e fazia grande parte da minha vida recorrendo ao metro ou aos autocarros da Carris. Em algumas viagens também utilizei redes de transportes públicos locais. Mas, cá na ilha onde nasci, devo conseguir contar pelos dedos das mãos as vezes em que tive de recorrer a uma camioneta.
Talvez por isso tenha ponderado se faria sentido escrever sobre esta espécie de arte que é esperar pela camioneta.
Sabem aquele ritual?
Chegar à paragem uns minutos antes, olhar ao fundo da estrada, voltar a olhar para o relógio e confiar que, mais minuto menos minuto, ela aparece.
Para quem, como eu, quase sempre teve um carro disponível, ou conseguia suprir as necessidades de transporte com uma caminhada de dez minutos, pode parecer uma coisa pequena.
Para quem depende da camioneta todos os dias, não é.
Bem me recordo da ansiedade enquanto estudava, sobretudo quando tinha uma aula obrigatória ou algum compromisso inadiável. E havia aquela velha teoria do cigarro: bastava acendê-lo para a camioneta aparecer ao fundo da rua e termos de o mandar fora.
Não sei se funcionava. Mas ajudava a passar o tempo.
Porque esperar por um transporte público pode ser a diferença entre chegar às aulas ou faltar. Entre picar o ponto a horas ou chegar atrasado ao trabalho. Entre conseguir ir a uma consulta ou ter de remarcar.
É, simplesmente, a diferença entre conseguir organizar a vida ou ficar dependente da sorte.
Quando pensamos num modelo de transportes e olhamos para os diagramas no papel, tudo parece simples.
Há uma linha. Há um horário. Há uma paragem. Há uma hora prevista de chegada.
Depois começa a viagem.
E a estrada tem outra lógica.
Há trânsito. Há escolas que abrem a determinada hora. Há trabalhadores que têm de chegar ao emprego. Há ligações que não podem falhar. Há motoristas que faltam. Há pessoas que não podem ficar simplesmente à espera.
Foi isso que estas primeiras semanas começaram a mostrar.
Horários que tiveram de ser ajustados, dificuldades no transporte escolar, problemas de articulação, dúvidas sobre passes, preços e descontos.
Nada disto significa que tudo esteja errado.
Mas também não pode tudo ser explicado como uma simples fase de adaptação.
Porque, quando se prepara uma viagem, convém conhecer o caminho antes de arrancar.
E depois há a questão da responsabilidade.
Quando alguma coisa corre mal num serviço concessionado, começa rapidamente a procura de uma paragem onde deixar a culpa.
Será da empresa. Talvez dos motoristas. Não. De quem estava antes, certamente. Ou talvez não seja culpa de ninguém. É a mudança. É a adaptação.
Entretanto, o passageiro continua no mesmo sítio.
À espera.
Para quem está na paragem, pouco interessa saber quem desenhou o percurso ou quem assinou o contrato ou de quem é a responsabilidade.
Quer apenas chegar ao destino.
É por isso que um serviço público pode ser entregue a uma empresa, mas a responsabilidade por garantir que ele funciona não desaparece com a assinatura do contrato.
No fundo, um horário é uma promessa, um contrato que diz: esteja aqui a esta hora e nós estaremos também.
É essa promessa que permite deixar o carro em casa, deixar um filho ir para a escola ou marcar uma consulta acreditando que haverá forma de chegar.
Talvez seja isso que verdadeiramente distingue um bom sistema de transportes.
Não são apenas os autocarros novos.
É poder confiar no relógio.
Porque haverá sempre alguém numa paragem a olhar ao fundo da estrada.
À espera da camioneta.
E a camioneta tem de aparecer.
Sem ser preciso acender o cigarro.