Estradas, casas, equipamentos, digitalização, obras públicas. Havia um problema e, muitas vezes, havia também uma verba europeia para ajudar a resolvê-lo. Nos Açores, só o Plano e Orçamento de 2026 previa cerca de 1,2 mil milhões de euros de investimento, fortemente apoiado por fundos comunitários.
Mas 2027 será diferente.
O próximo Orçamento Regional será o primeiro, em cinco anos, sem dinheiro do PRR. E, como se isso não bastasse, há sinais de menor disponibilidade financeira noutras frentes. A possível diminuição de fundos europeus e transferências da República e até a previsão de perdermos dezenas de milhões de euros devido às novas contas relacionadas com a população é um enorme desafio para uma Região que já tem problemas financeiros conhecidos.
Isto pode parecer conversa de economistas, mas não é.
Facilmente se percebe que menos dinheiro significa escolhas mais difíceis. Significa decidir entre construir e manter, entre criar um apoio novo e preservar aquele que já existe, entre anunciar uma obra e garantir mais médicos, mais professores ou a manutenção de respostas sociais.
E talvez aqui se acentue uma discussão que os Açores permanentemente deviam ter: uma Região Autónoma não pode medir a sua autonomia apenas pela quantidade de dinheiro que consegue negociar com Lisboa ou captar em Bruxelas. Tem também de se perguntar como cria riqueza, como fixa população, como reduz dependências externas e, sobretudo, como definir as prioridades quando os recursos deixam de ser abundantes.
Os fundos extraordinários foram uma oportunidade histórica. A verdadeira avaliação, porém, começa agora: perceber se deixaram apenas obras ou se deixaram uma Região mais capaz de enfrentar os novos desafios.
Porque governar com dinheiro é sempre mais fácil. Governar quando ele começa a faltar obriga a mais escolhas — e é nas escolhas que verdadeiramente conhecemos uma governação.
(Crónica escrita para Rádio)