Não sei se é mesmo Hassan. Na verdade, não sei quem é, de onde veio, há quanto tempo vive nos Açores ou se é funcionário ou dono do restaurante.
Vi apenas um homem de pele um pouco mais escura do que a minha, cabelo preto e barba cerrada, a levar dois pratos para uma mesa onde estava um casal de turistas que me pareciam franceses.
O resto fui eu que inventei.
Em poucos segundos, dei-lhe um nome, uma nacionalidade, uma história e até uma culpa.
Veio do Paquistão, decidi eu. Veio trabalhar para os Açores porque já não existem açorianos disponíveis para servir à mesa. Talvez ocupe o lugar de um dos nossos que poderia estar ali.
Mas por que razão está alguém de fora a servir num restaurante de Ponta Delgada? Onde estão os açorianos que poderiam fazer o mesmo?
Alguma coisa não estava certa.
Mas o que estava errado não era ele estar ali. Era eu achar que a sua presença precisava de uma explicação.
Talvez tenha nascido em Portugal. Talvez tenha nascido nos Açores. Talvez nem seja imigrante e Hassan seja apenas o nome que o meu preconceito lhe atribuiu.
Quando encontramos alguém que julgamos ser imigrante, perguntamos imediatamente de onde veio e por que razão está ali. Raramente perguntamos por que razão aquele restaurante, aquela obra, aquela exploração agrícola ou aquela fábrica passaram a depender de trabalhadores vindos de fora.
Chamemos-lhe Hassan.
Não porque esse seja o seu nome.
Mas porque, antes de o conhecermos, já inventámos demasiadas histórias sobre ele.
O Hassan que inventei lembra muitos dos nossos familiares, que foram um dia o José ou a Maria a trabalhar em New Bedford, Boston, Winnipeg, Joanesburgo ou Paris. Também eles foram os estrangeiros de aspeto diferente, bigode carregado, língua estranha e costumes que despertavam desconfiança.
Foram trabalhar para fábricas, obras, restaurantes e explorações agrícolas. Onde havia trabalho e a esperança de uma vida melhor. Nem sempre foi uma relação justa. Houve preconceito, exploração, trabalhos pesados e vidas inteiras divididas entre dois lugares.
Parte do fruto desse trabalho regressou aos Açores. Chegou nas “barricas d’América”, nos envelopes com “dólas”, nas casas construídas e nos filhos que puderam estudar.
Muitos dos que chegam trabalham e enviam para casa parte daquilo que ganham.
Mudam os nomes, os países de chegada e o destino dos envelopes.
A esperança é praticamente a mesma.
Será cómodo concluir que os nossos não querem trabalhar ou que quem chega lhes rouba o trabalho. Talvez não tenham sido as profissões a perder o encanto. Talvez tenham sido os salários a perder poder de compra, os horários a perder previsibilidade e a habitação a ganhar preços incompatíveis com o rendimento.
A imigração não criou a falta de mão de obra.
Tornou visível um problema que já existia.
A imigração pode responder a necessidades da economia açoriana, mas não pode servir para adiar a discussão sobre salários, condições de trabalho e valorização profissional. Muito menos para criar trabalhadores mais vulneráveis, dispostos a aceitar aquilo que os outros já não conseguem suportar.
No final, Hassan colocou os pratos na mesa e continuou o seu trabalho.
Eu continuei sentado a tomar café.