O que está esgotado, não se remenda. Substitui-se.
O modelo que trouxe os Açores até aqui não será necessariamente o mesmo que nos vai levar mais longe. Como qualquer modelo, serviu uma época e essa acabou.
Precisamos de uma economia que compita, não que se esgote. De qualificações que fixem crescimento e futuro, não que alimentem partidas. De uma demografia enfrentada com política a sério, não com discursos de circunstância. De uma Autonomia que ouse decidir, não apenas administrar. De uma Europa que se reforce por dentro para se defender face ao exterior.
Nada disto se resolve sozinho. Nada disto se deve resolver devagar.
Quarenta anos de Europa. Cinquenta de Autonomia. A pergunta já não é sobre o que conquistámos, mas sim se temos coragem para mudar o que é preciso para conquistar o que falta.
Essa coragem constrói-se em conjunto. Por isso, fica aqui um contributo para a reflexão coletiva que devemos fazer: nove perguntas sobre o nosso futuro, cujas respostas ainda temos de preparar, todos, juntos.
Nascem cada vez menos açorianos. Os que se formam, vão embora. Os que ficam, envelhecem. Isto não é um problema para o futuro. É um problema de hoje que ainda tratamos como se fosse de amanhã.
Quarenta anos de fundos e apoio comunitário e continuamos a (não) discutir produtividade. O dinheiro chegou. O modelo para o gastar é ainda o mesmo. E, entretanto, o futuro será mais sobre os desafios da aplicação da IA, se temos as qualificações para a usar e o seu impacto social e económico.
Formamos jovens e bons profissionais. E despedimo-nos deles no aeroporto. Investimos na qualificação de quem vai enriquecer outras economias. Isso não é falha de sistema nem culpa de quem procura soluções para o seu futuro. É o sistema a funcionar exatamente como está desenhado.
Não serve. Está esgotado. Precisa de ambição para crescer e competir. Um modelo que só se sustenta com apoio permanente não é um modelo. É um paliativo.
Cinquenta anos depois, ainda há quem confunda Autonomia com gestão da rotina. Autonomia sem ousadia é só descentralização de burocracia.
Fragmentada por dentro. Contestada por fora. Uma Europa que hesita perde terreno para quem não hesita nada. E há ainda quem não hesite em tudo fazer para acabar com ela.
Não só cabem como acrescentam. Mas, temos regras pensadas para o continente, aplicadas a ilhas longe no oceano. Prazos climáticos iguais para quem tem comboio e para quem depende de barco e avião.
Igualdade disfarçada que, na prática, é desigualdade.
Todos os ciclos eleitorais prometem fixar população. Todos os ciclos seguintes explicam porque não foi possível. Os jovens não esperam pela próxima promessa. Fazem as malas.
E a falta de habitação a preço acessível é apenas mais uma razão para não ficar.
É mais fácil um discurso sobre o passado do que uma decisão sobre o futuro. Comemorar é seguro. Mudar é arriscado. Só um dos dois resolve alguma coisa.
Nenhuma destas perguntas se responde sozinha, nem de um dia para o outro. Mas todas têm de começar a ser respondidas agora. Coletivamente. Que as comemorações sirvam para lançar pontes para o futuro e para questionar mais do que para exaltar.
Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu