Opinião

Uma triste silly season

Existe uma expressão britânica, silly season, utilizada para descrever aquela altura do ano em que tudo parece abrandar. É tempo de férias, de praia, de festas e de descanso. De aproveitar os dias longos e as experiências que fazem destas nove ilhas um lugar único.

São dias que nos ajudam a desligar do mundo, das notícias e das preocupações do quotidiano.

Mas, para muitos açorianos, o verão nunca foi sinónimo de descanso. São como as formigas, é na época alta que hotéis, alojamentos locais, rent-a-car, empresas marítimo-turísticas, restaurantes e tantas outras atividades procuram garantir receitas para o resto do ano.

Infelizmente, para muitos deles, este verão está longe de ser uma silly season.

Em junho, os Açores registaram 506,4 mil dormidas nos estabelecimentos turísticos, menos 3,8% do que no mesmo mês de 2025. O número de hóspedes diminuiu 1,8% e a estada média também encurtou.

Foi o nono mês consecutivo de redução homóloga das dormidas.

Ao primeiro mês, poderíamos falar numa oscilação. Ao segundo, numa coincidência. Ao terceiro, numa conjuntura menos favorável.

Ao nono mês, estamos perante uma tendência.

No primeiro semestre de 2026, os Açores perderam 4,6% das dormidas e 3,6% dos hóspedes. Enquanto isso, o país cresceu 1,3%.

A conjuntura internacional, pelos vistos, não produz os mesmos efeitos em todos os destinos.

O mercado nacional é um dos maiores sinais de preocupação. Em junho, as dormidas de residentes em Portugal diminuíram 9,2%. No conjunto do primeiro semestre, a quebra atingiu 10%.

O mercado nacional ajuda a sustentar os meses de menor procura, utiliza intensamente o alojamento local, tem maior potencial de repetição e é especialmente sensível ao preço das viagens.

E quando chegar aos Açores se torna demasiado caro, os portugueses não deixam necessariamente de viajar. Escolhem apenas outro destino.

Também os mercados externos, que durante alguns meses ajudaram a disfarçar a perda do mercado nacional, diminuíram 1,9% em junho.

A quebra já não está, portanto, limitada a um único mercado.

Também não está distribuída de forma igual por todo o setor.

A hotelaria registou um crescimento de 2,4% nas dormidas e aumentou os proveitos totais em 9,3%. É um resultado positivo para as empresas hoteleiras e ninguém deve desvalorizá-lo.

Mas o turismo dos Açores não acaba à porta dos hotéis.

O alojamento local perdeu 8,9% das dormidas em junho e 9,8% no primeiro semestre. Quase 18% dos estabelecimentos de alojamento local ativos declararam não ter recebido um único hóspede durante o mês.

E junho já não é propriamente inverno.

No turismo no espaço rural, a quebra foi ainda maior, 13,1% em junho e 13,8% desde o início do ano.

São precisamente estes segmentos, mais dispersos pelo território e frequentemente ligados a pequenos negócios, que estão a sofrer as maiores perdas.

Também São Miguel, responsável por cerca de dois terços das dormidas da Região, registou uma redução de 5%.

Na maior ilha, a hotelaria recuou 1%, enquanto o alojamento local caiu 9,2%.

Os dados sugerem que a quebra atinge quase todo o setor. A hotelaria tradicional resiste melhor, mas diminuem os visitantes mais sensíveis ao preço, muitos deles ligados ao mercado nacional.

Apesar disso, continuamos a assistir a uma sucessão de declarações destinadas a escolher apenas os números mais convenientes.

Os Açores podem ter hotéis a faturar mais e, simultaneamente, um destino a perder procura, competitividade e capacidade para distribuir riqueza pela economia regional.

Porque o turismo é também a viatura alugada, o restaurante, o passeio de barco, o guia, o café, o pequeno comércio, o táxi, o produtor local e a pessoa que decidiu investir as suas poupanças num projeto turístico.

E enquanto continuarmos a celebrar vitórias pífias como se anulassem o resultado regional, as formigas desta silly season contarão quartos vazios, carros parados, mesas disponíveis e clientes que não chegaram.

Para as cigarras, será apenas mais um verão, feito de odes aos números escolhidos e cantos de glória sobre vitórias que poucos conseguem sentir.