Opinião

O futuro do Faial prepara-se no presente

Há uma sensação que todos os faialenses conhecem. Sempre que a terra treme, instala-se um silêncio difícil de explicar. Crescemos a ouvir os relatos dos nossos pais e avós sobre sismos, erupções vulcânicas, tempestades e derrocadas. Sabemos que viver numa ilha é um privilégio, mas também uma responsabilidade.


Os recentes acontecimentos na Venezuela voltaram a lembrar-nos que, em poucos minutos, uma comunidade pode ver a sua realidade completamente transformada. Ao mesmo tempo, as alterações climáticas tornam cada vez mais frequentes fenómenos extremos, como chuvas intensas, tempestades, movimentos de vertente, incêndios rurais ou períodos de seca. Perante esta realidade, prevenir deixou de ser uma escolha para passar a ser uma obrigação.


O Faial dispõe de um Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil, cuja última revisão integral ocorreu em 2020. Trata-se de um instrumento indispensável, mas seis anos depois importa questionar se continua plenamente ajustado aos desafios atuais. A evolução dos riscos, as alterações climáticas e o conhecimento científico hoje disponível justificam uma reflexão séria sobre a necessidade de atualizar a estratégia de proteção civil da ilha.


Há uma realidade que não podemos ignorar: perante uma emergência grave, poderemos depender, durante muitas horas ou até dias, apenas da nossa capacidade de resposta. É precisamente por isso que a preparação faz toda a diferença.


Essa preparação deve começar nas freguesias. A criação de Núcleos Locais de Proteção Civil, coordenados pelas Juntas de Freguesia e pelas Casas do Povo, permitiria conhecer antecipadamente os recursos humanos e materiais existentes em cada comunidade. Médicos, enfermeiros, bombeiros, eletricistas, operadores de máquinas, geradores, tratores, embarcações ou motobombas só são verdadeiramente úteis se soubermos onde estão e como podem ser rapidamente mobilizados.


Também importa reconhecer a dispersão da população pelo território. Em muitas situações, estradas poderão ficar interrompidas, isolando pequenas localidades. Isso exige uma resposta descentralizada, capaz de chegar às pessoas antes mesmo de estas conseguirem deslocar-se para um ponto de acolhimento.


Devemos igualmente reforçar a acessibilidade através da recuperação de caminhos agrícolas e florestais, criar reservas estratégicas de água distribuídas pela ilha e olhar para o mar como uma verdadeira infraestrutura de proteção civil. Portos, portinhos e rampas de varagem poderão ser essenciais para fazer chegar socorro ou evacuar populações quando os acessos terrestres estiverem comprometidos. Da mesma forma, importa identificar zonas de aterragem de emergência para helicópteros em diferentes freguesias.


Mas a prevenção também começa em casa. Todas as famílias deveriam possuir um Kit de Emergência que lhes garantisse autonomia durante, pelo menos, 72 horas. Paralelamente, importa apostar muito mais na formação da população, através de simulacros, ações nas escolas e campanhas de sensibilização que reforcem uma verdadeira cultura de autoproteção.


Existe, porém, um debate que já não podemos continuar a adiar: o ordenamento do território. Continuar a construir em zonas reconhecidamente vulneráveis a galgamentos costeiros, movimentos de vertente ou cheias é ignorar uma realidade que tende a agravar-se. Mais difícil, mas inevitável, será começar a discutir, de forma gradual e consensual, a relocalização de habitações situadas em áreas de risco elevado. Em determinadas situações, proteger vidas humanas poderá significar retirar pessoas desses locais, em vez de reconstruir sucessivamente as mesmas infraestruturas.


A verdadeira proteção civil não se mede apenas pela capacidade de reagir quando acontece uma tragédia. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de antecipar, prevenir e preparar. Cada euro investido na prevenção representa vidas protegidas, prejuízos evitados e uma comunidade mais resiliente.


Porque o maior património do Faial nunca foram apenas as suas paisagens. Sempre foram as suas pessoas. E proteger o futuro da nossa ilha começa, inevitavelmente, por cuidar delas hoje.