Opinião

Uma encenação que já cansa (2.º ato)

O Presidente do Governo Regional declarou enfaticamente ter uma visão “cristalina” para a Saúde. A expressão é feliz, porque, involuntariamente, reveladora. A Saúde para o Governo do PSD/CDS-PP/PPM é o palco privilegiado da velha coreografia governativa de fotografia, proclamação e silêncio sobre o essencial.
É evidente que a aquisição de equipamentos, viaturas e tecnologia para o Serviço Regional de Saúde é positiva. Ninguém desvaloriza a modernização dos cuidados ou a robótica cirúrgica. O problema não está no investimento. Está em transformar cada aquisição financiada pelo PRR num autoelogio político e em proeza de governação.
Depois de três revisões do PRR e da cópia da opção nacional pela aquisição de equipamentos só não executa o que ficou programado se a incompetência for demasiada. Cumprir as metas do PRR na Saúde não é um favor aos Açorianos, é a obrigação mínima de quem teve instrumentos financeiros excecionais, metas revistas e oportunidades que dificilmente se repetirão.
Só que o PS/Açores olha para os desafios da Saúde na Região de forma diferente, procurando soluções para o acesso em condições de igualdade, para os tempos de espera, para a definição de prioridades nas especialidades e na fixação de profissionais, para a confiança dos doentes e para a capacidade de reconstruir, com verdade, aquilo que continua por resolver.
É precisamente na diferença destes dois caminhos que a tal visão “cristalina” perde fulgor. Em paralelo com o brilho tecnológico, os anúncios festivos e a encenação fotografada, a recuperação do HDES continua a arrastar-se entre planos e programas, explicações parciais, prazos incertos, reuniões à porta fechada e zonas de sombra, simplesmente, porque este executivo retirou ao orçamento regional a folga necessária para iniciar a reconstrução.
O PS/Açores insiste que é indispensável dizer a verdade aos Açorianos para devolver estabilidade e confiança à principal unidade hospitalar da Região. Anunciar o fim da apreciação do plano funcional é mais um ato falhado. Quando estará o quase novo (mas velho) HDES plenamente funcional? Qual o verdadeiro custo final? Quem pagará e o quê? O que aconteceu ao entusiasmo sonhador do Hospital Universitário? Que serviços continuarão condicionados?
A Saúde nos Açores precisa de menos espetáculo e mais responsabilidade. Quando a governação se confunde com coreografia, percebe-se que o problema já não é apenas de comunicação. É de noção!