A palavra concílio não nos é estranha.
Talvez porque todos, em algum momento, nos cruzámos com o Concílio dos Deuses n’Os Lusíadas, essa reunião maior onde se decide o destino dos homens pela voz dos deuses. Talvez porque a história da Igreja Católica Romana, tão presente na formação cultural portuguesa, nos habituou à ideia dos concílios como momentos de debate, decisão e orientação coletiva.
Nos Açores, porém, a palavra ganha uma dimensão ainda mais próxima quando pensamos no Divino Espírito Santo.
Na sua forma mais tradicional, o Espírito Santo não é apenas festa, coroa, bodo ou coroação. É também comunidade. É mesa partilhada. É lugar onde se reúnem pessoas diferentes, onde se escuta, onde se decide, onde se serve e onde, pelo menos naquele momento simbólico, ninguém deve valer mais do que o outro.
E talvez seja precisamente por aí que devamos começar quando falamos da arte do concílio.
Porque conciliar não é calar diferenças. Não é fingir que todos pensamos da mesma forma. Conciliar é mais difícil do que isso. É ouvir antes de responder, ponderar antes de acusar, debater antes de romper e perceber que uma comunidade só existe quando aceita sentar-se à mesma mesa.
Mas, para que alguém se sente à mesa, existem premissas fundamentais.
Lembro-me de ouvir, em tempos, uma expressão simples e certeira, “não se parte o pão com quem não nos respeita”. E talvez esteja aí uma das primeiras premissas não escritas da conciliação. Sem respeito, não há diálogo. Sem decoro, não há entendimento. Sem saber estar, qualquer tentativa de aproximação transforma-se apenas em encenação.
Conciliar exige abertura, mas também exige limites.
Exige transparência, informação e prestação de contas. Mas também exige compreender que nem tudo o que é discutido em processo de negociação deve ser transformado em espetáculo público. Há matérias que devem ser publicitadas, há decisões que devem ser explicadas, há responsabilidades que devem ser assumidas. Mas também há conversas que exigem reserva, confiança e sentido institucional.
Como diz a sabedoria popular, o que é dito em público responde-se em público; o que é dito em privado responde-se em privado.
As regras da conciliação nem sempre estão escritas. Variam conforme os intervenientes, os contextos e os momentos. Mas assentam sempre em princípios básicos, respeito, decoro, boa-fé, palavra dada, capacidade de ouvir e disponibilidade para reconhecer que ninguém possui sozinho a verdade inteira.
E é precisamente aqui que importa ser claro.
Conciliar não é abdicar de princípios, nem trocar convicções por uma fotografia simpática no fim da reunião. Também não é aceitar tudo em nome de uma paz artificial. Conciliar é ter a capacidade de aceitar e respeitar diferenças e, a partir delas, construir um caminho comum, sem abdicar dos princípios essenciais.
Em suma, é sentar à mesma mesa pessoas que pensam de forma diferente, dentro de regras que todos respeitam.
Sem essa capacidade, não há evolução. Há apenas a alternativa entre o impasse e a imposição. E nenhuma das duas serve a comunidade.
Depois da solidão de quem só vê inimigos e da comodidade de quem quer soluções desde que não lhe batam à porta, talvez falte recuperar esta arte difícil, ouvir, debater, respeitar e construir.
Essa é a arte do concílio.
Difícil de aprender, fácil de destruir e cada vez mais rara de ver.