Há muito que a política deixou de ser apenas o confronto entre diferentes ideias. Em demasiadas ocasiões, transformou-se numa disputa entre pessoas, onde o ruído se sobrepõe aos argumentos e o protagonismo vale mais do que o serviço à comunidade.
Em vez de procurarmos as melhores soluções para os problemas das nossas comunidades, gastamos demasiada energia a decidir de que lado elas vêm. Como se uma boa ideia deixasse de o ser apenas porque foi apresentada por alguém que pensa diferente.
Nos Açores, onde todos nos conhecemos e onde o percurso de cada um é facilmente escrutinado, esta realidade torna-se ainda mais evidente. Talvez por isso devêssemos ser ainda mais exigentes connosco próprios. Mais capazes de ouvir. Mais disponíveis para reconhecer mérito. Mais humildes.
Infelizmente, nem sempre é isso que acontece.
Criam-se grupos onde a lealdade parece valer mais do que a liberdade de pensar. Quem discorda passa a ser visto com desconfiança, mesmo quando pertence ao mesmo espaço político. A fidelidade deixa de ser às ideias para passar a ser às pessoas. E quando isso acontece, perde-se uma das maiores riquezas da democracia: a capacidade de discordar sem deixar de construir.
Também me custa assistir à facilidade com que se apaga o trabalho de quem veio antes. Como se cada mandato fosse um ponto de partida e não mais um capítulo de uma história muito maior. Nenhuma ilha começou connosco. Nenhum concelho foi construído por uma só geração. As escolas, os centros de saúde, as estradas, as associações, as empresas, as instituições e tantos outros projetos são o resultado do esforço de milhares de açorianos que, ao longo de décadas, deram o melhor de si.
Reconhecer esse legado não diminui ninguém. Pelo contrário. Só os líderes seguros de si conseguem elogiar o trabalho dos outros sem receio de perder protagonismo. A humildade não enfraquece a liderança; fortalece-a. Quem reconhece o mérito dos outros demonstra confiança no seu próprio trabalho e respeito pela comunidade que representa.
Também a crítica parece ter deixado de ser encarada como uma oportunidade para melhorar. Hoje, qualquer opinião diferente é facilmente confundida com um ataque pessoal. Em vez de respondermos aos argumentos, respondemos às pessoas. Em vez de discutirmos soluções, discutimos intenções.
A política nunca deveria ser um palco onde se procura o aplauso fácil. Deveria ser, antes de tudo, um espaço de encontro, onde diferentes perspetivas contribuem para encontrar melhores respostas para os problemas das pessoas. Quando o objetivo deixa de ser servir a comunidade e passa a ser alimentar egos ou conquistar protagonismo, todos perdemos. Perde a confiança nas instituições, empobrece o debate e enfraquece-se a própria democracia.
Mas a democracia nunca cresceu à custa do silêncio. Cresceu porque houve quem tivesse coragem de questionar, de propor alternativas e de pensar diferente.
Mas há ainda outro fenómeno que me inquieta. Vivemos rodeados de informação, mas cada vez mais afastados da evidência. Fala-se muito e demonstra-se pouco. As convicções substituem os factos, as perceções ocupam o lugar dos dados e as narrativas sobrepõem-se aos resultados. Quando deixamos de discutir com base em factos e passamos a discutir apenas com base em convicções, a verdade corre o risco de ficar refém de quem fala mais alto.
É neste ambiente que prosperam o populismo e a demagogia. Porque é sempre mais fácil alimentar emoções do que explicar números. É sempre mais simples dividir do que construir.
As nossas comunidades merecem mais.
Precisam de pessoas que sirvam em vez de se servirem. De líderes que saibam reconhecer um erro, aproveitar uma boa ideia, venha ela de onde vier, e compreender que governar não é vencer discussões, mas melhorar a vida das pessoas.
No fim, a História raramente guarda memória de quem falou mais alto. Guarda a memória de quem deixou obra, de quem construiu pontes em vez de muros e de quem teve a humildade de perceber que nenhuma conquista é exclusivamente sua.
Talvez esteja na hora de voltarmos ao essencial: menos egos, menos trincheiras e menos clubismos. Mais ideias, mais respeito e mais comunidade.
Porque, no fim, a política não será lembrada pelos aplausos que conquistou, mas pelas vidas que ajudou a melhorar.