Quando, há dois anos, soubemos que a nova Rede Regional de Áreas Marinhas Protegidas cobriria 30% do mar açoriano, muitos aplaudiram. Finalmente, iríamos proteger espécies, criar refúgios marinhos e contribuir para as metas internacionais de biodiversidade. Em janeiro de 2026 a rede entrou em vigor e anunciaram uma compensação para mitigar o impacto no setor. O objetivo era garantir que os pescadores continuavam a exercer a sua atividade durante uma fase de adaptação.
Mas, no terreno a realidade é bem mais dura. Os pescadores não contestam a necessidade de preservar o mar; contestam a falta de diálogo e de apoio. Os custos da atividade dispararam: entre 2021 e 2026 os custos com combustível para esse setor mais do que duplicaram. Em alguns segmentos da frota o combustível já representa mais de 60% dos encargos totais. Sabe-se que há barcos que em algumas saídas só ganham para pagar o combustível. Como se não bastasse, o Governo Regional aumentou as taxas de venda em lota, levando a um maior estrangulamento financeiro do setor.
Entre a promessa das compensações e o dia‑a‑dia no mar vai um abismo de diferença. As compensações ainda não chegaram à maioria dos pescadores e o setor cansa-se do incumprimento de compromissos e da ausência de medidas concretas. É por isso que as vozes nos portos são de desânimo e sem confiança no futuro.
Defender o mar não pode significar estrangular quem dele vive. Se queremos que a maior rede de áreas marinhas protegidas da Europa seja um sucesso, temos de pensar nos pescadores como aliados e não como obstáculos. Isso passa por pagar as compensações prometidas, travar os aumentos das taxas injustificáveis e criar mecanismos para mitigar o impacto dos preços dos combustíveis. Só assim preservaremos os ecossistemas e a dignidade de quem tira do mar o seu sustento.
(Crónica escrita para Rádio)