Li há uns dias que os Açores são uma terra de oportunidades e o soundbyte ficou-me na cabeça, talvez porque é uma dúvida que gostaria de não ter. Como pai de dois filhos, nada me deixaria mais feliz do que vê-los fazer aquilo que eu fiz, sair para estudar, conhecer o mundo, crescer através dessa experiência e, depois, regressar por vontade própria.
Mas acredito que este é também o desejo da maioria dos pais e da generalidade dos açorianos ou de qualquer ilhéu. Ver a nossa terra desenvolver-se, criar oportunidades e conseguir fixar os jovens.
Depois surge a minha parte mais racional e analítica, e é aí que esse desejo começa a ficar um pouco mais nublado.
Houve uma altura em que eu defendia que os Açores eram o verdadeiro centro do Ocidente. Uma ponte natural entre dois continentes, a poucas horas da Europa e da América. Um território onde se podia viver com qualidade e, com maior rapidez do que uma viagem de carro entre Porto e Lisboa, estar em Nova Iorque, Boston, Lisboa, Porto ou Faro.
A isso juntava-se algo raro nos dias de hoje a imensa qualidade de vida. A possibilidade de viver longe dos dramas das grandes cidades ao nível da habitação, do trânsito e do ritmo sufocante do quotidiano. Estar a cinco minutos de uma praia e a cinco minutos do campo ou de casa. Em muitos aspetos, parecia o melhor de todos os mundos.
Mas será que essa realidade ainda existe?
Será que continuamos a ter capacidade para chamar de volta aqueles que saem para estudar, trabalhar ou simplesmente conhecer o mundo? E que regressem, como no passado, trazendo conhecimento, experiência e até a audácia de investir. Porque o verdadeiro problema nunca foi sair. O problema é regressar.
Regressar e continuar a ter facilidade em viajar, seja por lazer, seja por necessidade. Regressar e conseguir encontrar uma habitação digna a preços acessíveis. Regressar e ter acesso a emprego qualificado e condizente com o investimento feito na formação.
E estes desafios não são apenas conjunturais. São, em grande medida, estruturais.
A aposta no turismo trouxe resultados positivos e ajudou os Açores a afirmar-se internacionalmente. Mas o turismo, por si só, não garante a capacidade de atrair e fixar pessoas, sobretudo numa altura em que sofre. Nenhuma economia sustentável pode depender apenas de um setor.
Os Açores precisam de diversificar a sua base económica. Precisam de apostar mais nas áreas tecnológicas, científicas e digitais. Precisam de criar uma verdadeira economia de serviços exportáveis, capaz de aproveitar aquilo que continua a ser uma enorme vantagem estratégica: a nossa posição geográfica enquanto centro do Atlântico, próximos da Europa e da América.
Numa altura em que o mundo acelera para áreas como a inteligência artificial, os centros de dados, a economia do mar e os serviços tecnológicos, os Açores não podem continuar demasiado dependentes apenas dos setores tradicionais ou de ciclos económicos conjunturais.
É preciso criar emprego qualificado, atrair investimento e garantir condições para que quem sai para estudar ou trabalhar veja nos Açores uma possibilidade real de regresso.
Porque o verdadeiro desafio nunca foi os jovens partirem. O verdadeiro desafio sempre foi criar uma Região onde valha a pena voltar.
Grande parte deste caminho terá de partir da iniciativa privada. Mas caberá sempre às entidades públicas criar as condições necessárias para que ela se possa desenvolver. E muitas vezes essas condições passam apenas por garantir estabilidade suficiente para que as pessoas aqui se consigam fixar. Em suma, permitir que os nossos filhos escolham regressar.
Porque uma terra de oportunidades não é apenas uma terra bonita.
Nem uma terra onde os turistas querem vir.
Uma terra de oportunidades é, acima de tudo, um lugar onde quem cá nasce consegue imaginar futuro.
Porque os Açores não perdem jovens quando eles partem. Perdem-nos quando deixam de ser uma hipótese de regresso.