Opinião

Entre o que o Pico é e o que ainda não o deixam ser

O desenvolvimento económico da Ilha do Pico não brota do acaso, nasce da terra negra, do trabalho teimoso das suas gentes e da identidade produtiva forjada entre o mar e a montanha. Constrói‑se com escolhas difíceis, com decisões que exigem coragem e com a recusa em aceitar como destino as limitações que há demasiado tempo continuam a aprisionar o crescimento económico e social da ilha.

Os sectores primários continuam a ser pilares essenciais da economia picoense. Agricultura e pecuária, em particular a produção de leite e carne, geram rendimento, fixam população e estruturam o território. A sua relevância vai muito além do valor económico direto pois sustentam a paisagem, mantêm vivas as comunidades rurais e alimentam cadeias de valor que se refletem noutros sectores, como a transformação agroalimentar e o turismo.

A vitivinicultura é um exemplo claro de como tradição e inovação podem caminhar juntas. O vinho do Pico, produzido num território classificado como Património Mundial da UNESCO, é hoje um produto de qualidade e reconhecimento internacional. O crescimento do sector, com investimento em adegas, enoturismo e exportações, prova que é possível acrescentar valor económico a partir da história e do saber‑fazer local. Mais do que agricultura, a vitivinicultura é cultura, marca territorial e alavanca económica.

O turismo afirma‑se como atividade diferenciadora precisamente por assentar numa oferta única: biodiversidade marinha e terrestre, observação de cetáceos, Montanha do Pico, património cultural e paisagens autênticas. Um turismo sustentável, de escala controlada e complementar aos sectores tradicionais.

Todo este potencial esbarra, porém, num obstáculo estrutural decisivo: as acessibilidades. A ampliação da pista do Aeroporto do Pico não é um luxo, mas uma necessidade urgente. Sem ela, a ilha continuará excessivamente dependente das Obrigações de Serviço Público, com limitações à mobilidade, à fiabilidade e à autonomia. Uma pista mais longa garante maior segurança operacional, diversidade de aeronaves e previsibilidade, condições essenciais para residentes, empresas, turismo e investimento.

No mesmo plano estratégico está o Porto Comercial de São Roque. A sustentabilidade da cabeça do molhe é urgente e inadiável. Qualquer fragilidade coloca em risco o abastecimento, a atividade económica e a segurança marítima. Investir no porto é uma escolha política clara em favor do desenvolvimento, da resiliência económica e da redução das desigualdades territoriais.

O Pico tem recursos, identidade e sectores produtivos sólidos. O que falta é alinhar o investimento público com esta realidade. Sector primário, vitivinicultura, turismo sustentável e infraestruturas robustas não são caminhos alternativos, mas partes da mesma visão estratégica.

Só com decisão e investimento estruturante o Pico se afirmará plenamente pelas suas potencialidades.