A visita estatutária do Governo Regional ao Pico voltou a evidenciar o que já ninguém ignora: fala‑se muito, faz‑se pouco. Entre declarações vazias e promessas recicladas ano após ano, a realidade mantém‑se praticamente inalterada. A ilha continua presa a uma paralisia governativa que não acompanha a energia das suas gentes nem o dinamismo crescente do seu tecido empresarial.
Na saúde, os picarotos continuam a enfrentar problemas estruturais que se arrastam há anos. O novo Centro de Saúde das Lajes permanece por construir, as obras em São Roque não avançam e a falta de médicos de família mantém a cobertura abaixo dos 75%, quando a média regional ultrapassa os 90%, comprometendo o acesso a cuidados essenciais.
Seis anos após o furacão Lorenzo, continuam por executar obras fundamentais à segurança e à mobilidade da ilha. É politicamente inaceitável que fundos da República destinados à reparação desses danos tenham sido desviados para outras intervenções, enquanto o Governo afirma, de forma contraditória, não dispor de verbas para cumprir o que estava estabelecido.
Também a impermeabilização da Lagoa do Paúl, essencial para a agricultura e para o abastecimento de água, continua injustificadamente adiada, apesar de os riscos estarem identificados e as soluções conhecidas. Esta inação revela uma clara falta de prioridade política.
Ainda assim, o Pico avança graças à força da sua comunidade e do setor empresarial, que inova, cria emprego e promove a ilha e os Açores. Em contraste, o investimento público em obras estruturantes tem sido insuficiente, como demonstram os relatórios de execução dos Planos e Orçamentos. Por isso, o PRR e a circular à Vila da Madalena assumem um papel decisivo, face à escassez e lentidão das restantes intervenções regionais.
O contraste é evidente: enquanto a iniciativa privada acelera, o Governo trava. Trava porque não define prioridades, não garante execução e não cumpre os compromissos assumidos. A ilha cresce, sim, mas sem o apoio público que lhe é devido.
A visita estatutária deveria ser o momento para desbloquear processos, assumir prazos e apresentar resultados. Em vez disso, transforma‑se numa encenação anual onde se repete o que está por fazer, sem explicar por que nada avança. Discute‑se, promete‑se… e tudo fica na mesma.
O Pico merece decisões firmes, obras concretizadas e um Governo cumpridor. Até lá, permanece a convicção generalizada: o Governo passa, os problemas ficam, e o Pico continua a avançar sozinho.