Opinião

O turismo não é para todos

A Ilha Graciosa, Reserva da Biosfera da UNESCO desde 2007, possui um conjunto de características naturais, paisagísticas e culturais que a colocam, em teoria, numa posição privilegiada para desenvolver um modelo de turismo sustentável, diferenciado e de pequena escala.

No entanto, apesar do discurso político recorrente sobre o crescimento do turismo nos Açores, a realidade da Graciosa continua marcada por fragilidades que resulta em benefícios reduzidos para a economia local.

Os dados mostram que a Ilha Graciosa não acompanha, infelizmente, a tendência geral de crescimento do turismo que se verifica nos Açores, no período pós‑pandemia.

Em 7 anos (comparando 2013 com 2019) regista-se um crescimento acentuado das dormidas em 54%, mas nos 7 anos seguintes, de 2019 a 2025, esse crescimento foi residual, apenas 0,1%, enquanto tivemos ilhas a crescer, no mesmo período, entre 23% e 108%.

No número de hóspedes as coisas estão pior. A Graciosa recebeu, em 2025, menos 4,4% de hóspedes do que em 2019.

Vendo os proveitos totais, depois de descontar os respetivos custos, a situação agrava-se. Relativamente a 2019, a receita do turismo foi de menos 15%.

Apesar de percentagens de crescimento aparentemente elevadas em alguns períodos e em algumas ilhas, importa sublinhar que esses valores partem de aumentos muito superiores que se verificaram nos 7 anos anteriores (2013-2019), o que derruba a leitura triunfalista de que agora é que foi.

Podemos concluir que a Graciosa não cresce como as outras ilhas. É a única. Isso significa que esta ilha continua periférica no turismo regional por não conseguir captar fluxos turísticos, mesmo em anos muito favoráveis para o turismo dos Açores.

É claro que, apesar das qualidades reconhecidas, há aqui uma falta de notoriedade do destino devido a uma ausência de estratégia diferenciadora e uma forte dependência de ligações aéreas sem demoras entre escalas e a bons preços.

Isto prova que o atual modelo regional de desenvolvimento turístico não serve ilhas pequenas, nem garante a coesão territorial.

E não me venham com acusações de visão “catastrofista”, porque, como diz o nosso povo, o mais fácil é falar de barriga cheia.