Opinião

Não nos habituemos

Há coisas perigosas que não chegam de repente. Vão chegando devagar.

Não fazem barulho. Não provocam choque imediato. Instalam-se aos poucos, quase sem darmos por isso. E, quando damos conta, já fazem parte da rotina.

A habituação é uma delas.

Nos Açores, sentimos isso em pequenas coisas. Na forma como esperamos mais tempo do que devíamos. Na forma como aceitamos respostas incompletas. Na forma como, tantas vezes, deixamos de esperar o melhor.

E é aí que começa o verdadeiro risco.

Não é quando algo falha — isso sempre aconteceu. Mas quando a falha deixa de surpreender. Quando passa a ser previsível. Quando deixa de gerar indignação suficiente para exigirmos uma mudança.

Na política, este é um dos sinais mais silenciosos da degradação.

Não é o erro em si. É a forma como passamos a conviver com ele. Como o integramos no dia a dia. Como deixamos de esperar mais e melhor.

E isso tem consequências.

Quando a exigência baixa, a resposta tende a acompanhar. Não por maldade. Mas por ausência de pressão. Por falta de urgência. E, de repente, aquilo que era uma exceção torna-se padrão.

Mas os Açores nunca foram isso.

Sempre fomos feitos de gente que se adaptou, que resistiu, que construiu em condições difíceis. Gente que nunca aceitou o limite como destino. E é por isso que eu acho que este momento exige cuidado.

Caro ouvinte, não digo isso para dramatizarmos. Digo-o para não normalizarmos.

Porque há uma diferença entre compreender as dificuldades de governar uma região como a nossa… e aceitar que isso sirva de desculpa permanente.

 

(Crónica escrita para Rádio)