Opinião

Trapalhada


Há momentos em que é preciso dizer as coisas como elas são e este é, sem dúvida, um deles. Depois de uma trapalhada desta dimensão, conduzida pelo Governo da República com o confortável silêncio do Governo Regional, eis que o senhor Ministro surge agora, em modo anúncio solene, a “resolver” problemas que já todos conheciam e só chegaram a este ponto porque o próprio Governo assim quis.
Com um certo sentido de oportunidade, ou de encenação, o Governo da República decidiu anunciar a eliminação da obrigatoriedade de apresentação de recibos, uma exigência absurda que só serviu para emperrar ainda mais um sistema já de si caótico. Curiosamente, foi preciso contestação, petições públicas e imensas queixas para se chegar à brilhante conclusão de que talvez complicar o simples não fosse a melhor estratégia. Mas pronto, fica o momento: o Governo corrige aquilo que nunca deveria ter criado e apresenta-o como conquista.
Mas não se ficou por aqui. Anunciou também que “nas próximas semanas” surgirá uma solução milagrosa, a qual, segundo o próprio, “nunca ninguém foi capaz de apresentar”, para que os residentes nas ilhas deixem de adiantar dinheiro nas viagens. Uma promessa com prazo vago, embrulhada em tom épico, como se não existissem já propostas concretas em cima da mesa, nomeadamente a do PS, que trata também deste problema e que, por coincidência ou talvez não, tem sido convenientemente adiada.
No entanto, talvez o mais revelador disto tudo seja isto: nem os próprios parceiros regionais parecem convencidos. Na véspera destas declarações, PSD, CDS/PP e PPM nos Açores apressaram-se a apresentar iniciativas sobre estas matérias, numa espécie de plano B, não vá a solução anunciada ficar, como tantas vezes, pelo caminho.
Ora, para que tudo isto seja mais do que a propaganda que aparenta ser, o mínimo que se espera é que os partidos da AD não inventem procedimentos e manobras dilatórias e permitam, sem mais jogos nem encenações, que a proposta do PS seja finalmente discutida e votada.
É que, se a intenção fosse resolver, já estava resolvido. Assim, vai-se anunciando, repetindo e adiando, na esperança de que alguém ainda aplauda. Pela nossa parte, continuamos atentos. Porque, ao contrário do que querem fazer crer, ainda não está nada resolvido.