A Lotaçor, empresa pública tutelada pela Secretaria Regional do Mar e das Pescas, atrasou recentemente o pagamento dos salários de fevereiro. A razão é tão absurda quanto grave: uma falha interna do próprio Governo Regional. Nada ilustra melhor a desorganização, a incompetência e o desrespeito de uma tutela que é simultaneamente patrão, gestor e responsável último.
Quando o Governo falha consigo próprio, quem sofre são sempre os mesmos: os trabalhadores, que veem a sua dignidade posta em causa por salários pagos fora de tempo. Não se trata de uma simples “falha administrativa”, mas de um sintoma evidente de falta de planeamento, descoordenação política e insensibilidade social.
Um departamento governamental que nem assegura o pagamento atempado dos salários numa empresa pública que tutela não tem autoridade moral para exigir rigor ou sacrifícios a ninguém. E esta não foi a primeira falha.
A reunião recente sobre a Lotaçor, anunciada como decisiva para o setor das pescas, acabou por produzir apenas um conjunto de portarias que taxam quase toda a atividade piscatória, uma opção fácil, mas profundamente injusta e socialmente sem sentido. Em vez de apoiar os pescadores, transferem-se para eles os custos de um modelo de gestão que está a falhar.
A Lotaçor foi criada para servir os pescadores, não para se financiar à custa deles. Isso mesmo foi dito por José Manuel Bolieiro, mas que está esquecido, tal como outras promessas.
Se a sustentabilidade da empresa depende de carregar ainda mais sobre quem trabalha no mar, então o problema está no modelo e na tutela, não nos pescadores. Enquanto não se assumir esta realidade, o discurso político de apoio ao setor continuará a contradizer a prática.