As eleições presidenciais do passado domingo deixaram um aviso claro. Um sinal político que não podemos ignorar. O país falou de forma fragmentada, inquieta e reveladora.
Os resultados mostram uma democracia viva, mas tensionada. E mostram também outra coisa: uma parte significativa do país já não quer os mesmos de sempre e isso foi visível à direita e à esquerda. A dispersão de candidaturas revelou um eleitorado cansado das figuras habituais, dos discursos previsíveis e das soluções recicladas.
Essa rejeição do passado não é, por si só, um problema. Pelo contrário: a renovação faz parte da vitalidade democrática. O problema surge quando esse cansaço é canalizado para projetos que vivem mais da negação do que da proposta, mais do ataque às instituições do que da vontade de as melhorar.
Muitos eleitores escolheram uma candidatura que se alimenta do confronto permanente com o sistema democrático. E nenhum campo político conseguiu, sozinho, falar para uma maioria absoluta. Esse equilíbrio obriga-nos a tirar conclusões.
Não basta interpretar os números. É preciso interpretar o momento.
E este é o tempo da responsabilidade democrática. Não para apagar divergências ideológicas, nem para criar consensos artificiais, mas para perceber que há princípios que não devem ser negociáveis. O respeito pela Constituição, pelas instituições, pela pluralidade e pelos direitos fundamentais não pode ser relativizado em nome do revanchismo.
Quando o discurso da extrema-simplificação cresce, os democratas não podem responder com silêncio, com cálculo tático ou até com indefinição. Têm de responder com união de princípios.
Depois de domingo, o país não precisa de mais trincheiras. Precisa de maturidade democrática.
Porque quando os democratas se fragmentam em excesso, o risco não é perder uma eleição. É perder o essencial.
(Crónica escrita para Rádio)