Nos Açores, o que devia ser exceção tornou-se regra. A falta de planeamento, a incoerência política e a incapacidade de assumir responsabilidades fazem hoje parte do quotidiano da governação regional.
No desporto, a decisão de acabar com a Palavra Açores é um erro enorme. Não estamos a falar de um detalhe técnico ou de uma simples alteração administrativa. Estamos a falar de um instrumento essencial para que os clubes que competem fora da Região possam representar os Açores com dignidade, identidade e estabilidade financeira.
O Governo diz que não é o fim, que é apenas uma reavaliação durante a próxima época. Mas enquanto se reavalia, o que acontece? Como é que os clubes representam a nossa Região nas competições nacionais? Com boa vontade apenas? Com discursos? A Palavra Açores não é um luxo, é um reconhecimento da insularidade, dos custos acrescidos e do papel que o desporto tem na afirmação externa da Região. Retirá-la é enfraquecer quem todos os fins de semana leva o nome dos Açores além-mar.
Passando para a mobilidade elétrica, o cenário não é melhor. O Governo decidiu fechar, por tempo indeterminado, as candidaturas aos sistemas de incentivos à mobilidade elétrica e às energias renováveis, justificando a decisão com a necessidade de priorizar a execução do PRR. A prioridade ao PRR é compreensível. O que não é compreensível é parar tudo o resto.
Não se governa suspendendo programas sem alternativas, nem penalizando famílias e empresas que confiaram em políticas públicas anunciadas pelo próprio Governo. Num território arquipelágico, dependente do exterior e com custos energéticos elevados, estes incentivos não são um capricho. São uma ferramenta estratégica para reduzir custos, promover sustentabilidade e modernizar a economia regional. Encerrar candidaturas de forma abrupta revela falta de planeamento e incapacidade de gerir diferentes instrumentos em simultâneo.
E depois chegamos à economia. O discurso é sempre o mesmo. A economia está como nunca esteve. Há valores históricos de arrecadação de impostos. As contas estão equilibradas, embora reste perceber com que critérios e com que impacto real na vida das pessoas. Ainda assim, a pergunta impõe-se de forma simples e direta: onde anda esse dinheiro todo?
Se a economia está tão bem, como é possível assistirmos a tantos cortes e a tantos atrasos nos pagamentos? Uma economia verdadeiramente pujante devia traduzir-se em mais estabilidade, mais previsibilidade e mais respostas. Não no contrário.
O que os Açorianos sentem no dia a dia não acompanha a narrativa oficial. Famílias, associações e empresas não se orientam por gráficos nem por comunicados. Precisam de apoios que cheguem a tempo, de compromissos que sejam cumpridos e de políticas públicas que ofereçam segurança e previsibilidade. E isso, claramente, não está a acontecer.
Cinco anos depois, continua a ouvir-se que a culpa é do Partido Socialista. Cinco anos depois. Com governação plena, com orçamento aprovado e com poder executivo total. É, no mínimo, irónico. Governa-se há cinco anos e continua-se a governar como se ainda se estivesse na oposição. Isso não é liderança, é fuga às responsabilidades.
Os Açores precisam de coerência, de planeamento e de decisões que respeitem quem cá vive e quem cá investe. Precisam de um Governo que assuma escolhas e consequências, e não de um Governo que corta, atrasa, suspende e justifica sempre com os outros.
Porque errar pode acontecer. Persistir no erro e fingir que a culpa nunca é própria, isso sim, é desgoverno. E infelizmente, é isso que hoje marca a ação do Governo Regional dos Açores, liderado por José Manuel Bolieiro.
Russell Sousa
Presidente da JS Açores
Deputado na ALRA